Paulo Dantas roda mais por Renan Filho do que Renan Filho corre por si mesmo

Minha avó dizia que é o olho do dono que engorda o gado.
Demorei a entender que ela não estava falando só de criação. Estava falando de uma regra simples da vida: aquilo que importa para você exige presença.
Na política também. E talvez seja essa a parte mais interessante da eleição para o Governo de Alagoas, a doze dias das urnas: Paulo Dantas não é candidato, não indicou o vice e, ainda assim, faz campanha como se o nome dele estivesse na cédula.

A pesquisa Paraná, divulgada nesta segunda-feira, colocou JHC sete pontos à frente de Renan Filho. É vantagem. Não é sentença. E agora Lula desembarca em Alagoas na quinta-feira — mas ninguém precisa apresentar Lula a Renan, nem Renan a Alagoas. Ele foi ministro, governou o estado duas vezes e hoje é senador. Conhece prefeito, liderança, estrada, voto e os atalhos da política alagoana.
Por isso minha atenção está em outro personagem: Paulo Dantas.
Quem conhece os bastidores do governo sabe que Paulo tem uma característica pouco comum para quem chegou ao topo do poder: é acessível. Seu gabinete recebe deputado e prefeito, claro. Mas recebe também vereador, liderança do interior, conselheiro tutelar e gente que chega simplesmente com um problema debaixo do braço. Paulo ouve. Nem sempre resolve — ninguém resolve tudo —, mas recebe. E política também é memória de como fomos tratados quando precisamos de alguém.
Maquiavel percebeu isso há mais de cinco séculos: existe poder em estar perto. Quem está presente sente o problema antes, conhece as pessoas e entende o território de um jeito que relatório nenhum entrega. Paulo talvez tenha aprendido Maquiavel sem nunca ter lido O Príncipe. Está rodando Alagoas palmo a palmo, e o curioso é que não faz isso por si: não é candidato à reeleição, não indicou o vice. Mesmo assim, é difícil lembrar de um governador alagoano recente tão pessoalmente empenhado em eleger o sucessor.
Enquanto todo mundo olha para o avião que vai pousar trazendo Lula, eu continuo de olho no carro que não para de rodar.

Lula tem peso. Renan tem história. Paulo tem acesso. E a doze dias da eleição, os três podem fazer diferença.
Do outro lado, Alfredo Gaspar também foi para a estrada pedir voto para Flávio, falando em enterrar a era dos Calheiros — mesmo sem JHC ter declarado formalmente apoio a ele. Mais um daqueles detalhes que tornam a política muito mais interessante nos bastidores do que no palanque.
Minha avó talvez resumisse tudo isso sem pesquisa, cientista político ou marqueteiro: é o olho do dono que engorda o gado. Só que, desta vez, Paulo nem é o dono. E talvez seja justamente isso que torne sua movimentação tão interessante.
Faltam doze dias. Tempo suficiente para muita coisa acontecer. Porque campanha tem pesquisa, palanque, presidente e fotografia. Mas voto ainda mora na casa de alguém.
O resto é microfone.




