Aqui, forasteiro só vira problema quando é mulher.

Um secretário de Estado subiu num palanque em Santana do Ipanema para atacar a única mulher da disputa majoritária em Alagoas pela terra onde ela nasceu. Alagoas é administrada há décadas por gente que nasceu longe daqui — e ninguém nunca pediu a certidão de nascimento de um homem. A régua não está medindo origem: está medindo gênero, e sobretudo ameaça. E faz a pergunta desconfortável sobre nós mesmas: quando a agredida é da chapa contrária, o princípio continua valendo?
Meu avô dizia que ninguém joga pedra em árvore que não deu fruto. Levei anos de campanha para entender que ele estava falando de política.
Desde que Marina Cândia, a Marina JHC, entrou na disputa pelo Senado, a conta é simples de fazer: a cada pesquisa nova em que ela cresce, muda o tom do que dizem sobre ela. Não muda o argumento. Muda o tom.
O mais recente veio de cima de um palanque, em Santana do Ipanema, da boca de um secretário de Estado. O crime dela: ter nascido em outro lugar.

Sejamos honestos com o que está diante dos olhos. Alagoas é governada, representada e administrada, há décadas, por gente que nasceu longe daqui. Homem de fora ocupa cadeira, assina decreto, comanda secretaria, disputa mandato, e ninguém sobe em palanque para lembrar a certidão de nascimento dele.
Ninguém pergunta a um homem se ele é daqui o bastante para nos representar.
A xenofobia, em Alagoas, é seletiva. E toda régua seletiva não está medindo aquilo que diz medir.
Não está medindo origem. Está medindo gênero. E, sobretudo, está medindo ameaça.
Quem trabalha em campanha reconhece isso de longe. Quando o adversário ataca o projeto, ele está disputando. Quando ataca a biografia, o corpo, o sotaque, o casamento ou a origem, ele já saiu da disputa e entrou em outra coisa.
Isso tem nome no Brasil desde 2021: violência política de gênero, prevista na Lei 14.192 e no artigo 326-B do Código Eleitoral. Não é grosseria de palanque. É tipo penal.
E aqui vai o incômodo que ninguém quer ouvir: o voto é livre. Ninguém é obrigado a votar em Marina.
Existem críticas legítimas em curso à campanha dela, inclusive uma denúncia desta semana sobre o uso da imagem da candidata em canal de serviço da Prefeitura de Maceió, que ganhou repercussão nacional. Essa crítica deve ser feita, com todas as letras, porque trata do uso de estrutura pública e isso é assunto de todos nós.
Criticar projeto é democracia. Atacar origem é outra coisa.
Quem não distingue as duas coisas não está defendendo candidato nenhum. Está defendendo o direito de humilhar.
Somos mais da metade do eleitorado e pouco mais de 17% da Câmara dos Deputados. A lei nos garantiu 30% das candidaturas, e ninguém garantiu 30% do poder. Porque cota de vaga não vence aquilo que faz a mulher desistir antes de entrar.
E o que faz a mulher desistir tem nome e endereço: é a certeza de que, se ela crescer, vão falar do corpo dela, da casa dela, do marido dela, da terra dela. Nunca das ideias dela.
Agora vem a parte desconfortável desta coluna. E ela é sobre nós.
Há poucas semanas, a prefeita da Barra de Santo Antônio, Lívia Carla, virou alvo de ataques do ex-vice-prefeito do município. A reação pública foi imediata. O episódio foi tratado como violência contra a mulher, houve determinação de apuração e a prefeita buscou proteção junto às instituições.
Fez tudo certo. E recebeu aquilo que toda mulher agredida deveria receber: respaldo.
Guarde essa cena.
Ela é a régua.
Porque semanas depois, outra mulher voltou a ser atacada publicamente no ambiente político. Desta vez, por sua origem, pela terra onde nasceu.
E a pergunta é simples: a reação será a mesma?
É aqui que precisamos parar de escolher princípios conforme o lado do palanque.
Não estou dizendo que a defesa de Lívia Carla foi errada. Foi certíssima. Estou dizendo que quem tem a frase pronta e só a usa quando a agredida é da própria chapa não tem princípio. Tem tática.
E tem o outro lado disso, que dói mais, porque é sobre o preço que a gente aceita pagar.
Em Arapiraca, Rute Nezinho foi eleita vice-prefeita e passou o mandato à margem da administração que ajudou a eleger, como a imprensa do Agreste registrou à época. Ficou calada. Só falou quando encontrou uma porta em outro grupo político. Hoje disputa uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PSD.
Não culpo Rute.
Sei o preço de reclamar quando você depende exatamente de quem te silencia. Mas registro o custo, porque é o custo de todas nós.
Quando a gente engole em nome da unidade do grupo, ensina que dá para engolir. E a próxima engole também.
Discurso de direitos que só funciona quando a agredida é da nossa cor partidária não é discurso de direitos. É estratégia.
E estratégia, quem trabalha com isso sabe, tem prazo de validade curto. Dura até o dia em que a pedra vem para o nosso lado.
E aí talvez não tenha ninguém do outro lado disposto a nos defender, porque fomos nós que ensinamos que não precisa.
Defender uma mulher de um ataque não é pedir voto para ela.
É garantir que, daqui a quatro anos, alguma menina de Alagoas ainda ache que vale a pena tentar.
O resto é microfone.




