Ronaldo Lessa não saiu. Veja o que foi acertado enquanto Alagoas dormia.

Ele confirmou a permanência ao lado de JHC e será o presidente do novo Fecoep. Entre a véspera e a manhã não houve milagre: houve negociação, pesquisa e madrugada.
A noite é boa conselheira, dizia minha avó. E o resto do ditado, que ninguém fala, é que de noite todos os gatos são pardos. Foi de madrugada que Alagoas mudou de assunto outra vez.
Quem dormiu na quinta-feira achando que Ronaldo Lessa tinha sido descartado acordou na sexta com o vídeo: ele ao lado de JHC, confirmando a permanência no grupo e anunciado como presidente do novo Fecoep num eventual governo. Entre uma coisa e outra não houve milagre, nem reviravolta, nem arrependimento. Houve o que sempre há e quase nunca se vê: gabinete com a porta fechada, banco de trás de carro, telefonema às duas da manhã, alguém indo embora e voltando antes de chegar em casa.
Os americanos têm nome para isso desde 1920. Naquele junho, a convenção republicana travou em Chicago porque nenhum candidato tinha votos para vencer. Os chefes do partido se trancaram na suíte 404 do Hotel Blackstone, no meio da madrugada, e de lá saíram às duas da manhã com o nome de Warren Harding, que estava em quinto lugar. Nasceu ali a expressão sala cheia de fumaça. Cem anos depois, a fumaça mudou, o quarto mudou, mas a hora continua a mesma.

Não é cinismo, é ofício. Política não se faz em manchete, se faz em conversa, e conversa madura precisa de duas coisas que o público não vê: negociação e pesquisa. Número não é detalhe técnico, é o chão onde se pisa. É o número que diz a um candidato o que ele ganha agregando um nome e o que ele perde perdendo outro. Tudo o mais é intuição, e intuição em ano eleitoral custa mandato.
Aos 74 anos, Ronaldo Lessa não precisa que ninguém lhe explique o tabuleiro. Duas vezes governador, duas vezes prefeito, ele já foi peça, já foi jogador e já foi tabuleiro. Um homem com essa estrada não decide no calor de uma reunião ruim. Ele soma, subtrai, mede o que perde saindo e o que ganha ficando, e escolhe. Repare que o que ele aceitou não é um cargo de hoje, é a presidência de um fundo num governo que ainda não existe. Isso não é conformismo. É outra coisa, e mais séria: quem aceita um cargo que só nasce se a chapa vencer deixa de ser convidado e vira sócio do resultado. Passou a ter razão para trabalhar até outubro.
Do outro lado, JHC aprendeu a lição que todo candidato de primeira viagem ao Palácio precisa aprender, e de preferência cedo. Ele construiu uma imagem de quem caminha sozinho com o povo, sem intermediário, sem padrinho, sem corredor. Bonito no palanque. Insuficiente na urna. Uma andorinha só não faz verão, e quem quer ir rápido vai sozinho, mas quem quer ir longe vai acompanhado. Ele entendeu que não dava para prescindir de Arthur e ao mesmo tempo dispensar Ronaldo. Sozinho se ganha uma eleição municipal com boa comunicação. Estado é outra conta, e essa conta se faz somando.
E aqui entra a parte que me toca. Eu tinha um texto pronto ontem à noite, fechado, com título e capa. Sustentava que o acordo tinha sido rompido e que quem havia confiado tinha saído menor. Procurei o vice - governador antes de publicar, como sempre faço, e ele me respondeu que não deixaria o projeto. Achei que era a fala protocolar de quem ainda não quer confirmar o óbvio. O sono chegou antes da certeza, e eu não publiquei. Amanheci com o vídeo no celular, e com uma lição que vale mais que a coluna perdida: em política, pressa é o único vício que não rende dividendo. A madrugada sempre resolve, e quase nunca resolve do jeito que a gente escreveu antes de dormir.
Que ninguém se engane, portanto, nos próximos meses. O que aparecer como rompimento pode ser negociação em curso. O que parecer humilhação pode ser preço combinado. E o que for anunciado como gesto de alma quase sempre passou antes por uma planilha. A imagem pública das ações desenha o caminho da eleição tanto quanto o voto somado, e quem entende disso não improvisa às vésperas.
Durma com essa. Mas não escreva antes de acordar.
O resto é microfone.




