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Quem tem dois relógios

Wanessa Costa05 de setembro de 2026
Quem tem dois relógios

Em uma semana, cinco institutos mediram a mesma disputa e chegaram a cinco Alagoas diferentes — de empate técnico a dezesseis pontos de vantagem. Todos registrados na Justiça Eleitoral, todos legais. A divergência tem explicação técnica antes da explicação maliciosa, e existe um jeito de ler qualquer pesquisa em quarenta segundos.

Homem com um relógio sabe que horas são. Homem com dois nunca tem certeza. Alagoas acordou hoje com cinco relógios marcando horas diferentes.

Vamos aos números.

No dia 31 de agosto, a Paraná Pesquisas mostrou JHC com 47,2% e Renan Filho com 41,3%. Foram 1.400 eleitores ouvidos entre os dias 26 e 29, com margem de erro de 2,7 pontos.

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No dia seguinte, a Falpe colocou Renan Filho na liderança, com 41,25%.

Nesta sexta-feira, o DataTrends apontou empate: 43% para cada um. Foram 1.200 entrevistados entre 31 de agosto e 2 de setembro, com margem de erro de 2,83 pontos e registro AL-05087/2026.

No mesmo dia, o TDL colocou JHC dezesseis pontos à frente.

Semanas antes, a Quaest havia mostrado Renan com 42% contra 40%.

Cinco pesquisas. Institutos registrados. Números muito diferentes.

E aí começa a parte mais curiosa.

Já estive numa sala numa manhã dessas. Chega a pesquisa boa e alguém diz:

“Joga no grupo agora.”

Vinte minutos depois chega uma pesquisa ruim.

A mesma pessoa olha e decreta:

“Essa é encomendada.”

Ninguém abre o registro. Ninguém olha quando a pesquisa foi feita. Ninguém confere quantas pessoas foram ouvidas ou como a amostra foi distribuída.

A pergunta deixou de ser “essa pesquisa é confiável?”.

Passou a ser:

“Esse número é bom para o meu lado?”

E os dois lados fazem exatamente a mesma coisa.

O resultado é que o eleitor recebe, em poucas horas, duas ou três “verdades” diferentes, todas apresentadas por institutos que fizeram pesquisas registradas na Justiça Eleitoral.

Depois a gente se pergunta por que o eleitor desconfia de tudo.

Mas existe uma explicação técnica antes da explicação desonesta.

Pesquisas podem dar resultados diferentes sem que nenhuma delas seja fraude.

Um instituto pode entrevistar por telefone. Outro, presencialmente. Um pode ouvir mais pessoas na capital; outro pode dar mais peso ao interior. Um pode pesquisar um cenário com dois candidatos; outro, com seis.

E tem uma coisa ainda mais importante: quando a pesquisa foi feita.

Em eleição, uma semana pode mudar muita coisa.

É por isso que pesquisa não é uma sentença. É uma fotografia.

E cada instituto pode estar fotografando um momento um pouco diferente de Alagoas.

O problema começa quando a gente olha para a fotografia e decide que só vale aquela em que a gente saiu bonito.

Em 1957, o psicólogo Leon Festinger estudou justamente esse comportamento: quando um fato contraria aquilo em que acreditamos, muitas vezes é mais fácil atacar o fato do que mudar a nossa crença.

É mais fácil dizer que a pesquisa é ruim do que admitir que talvez a nossa certeza estivesse errada.

E é exatamente isso que estamos vendo em Alagoas.

Dos dois lados.

Então fica uma recomendação simples. E ela não é sobre em quem votar.

Quando chegar a próxima pesquisa no seu celular, antes de comemorar ou xingar, procure quatro coisas:

Quem contratou.
Quantas pessoas foram ouvidas.
Em quais dias a pesquisa foi realizada.
E qual é o número do registro na Justiça Eleitoral.

Leva menos de um minuto.

É a diferença entre ler uma pesquisa e deixar que uma pesquisa leia você.

Relógio parado acerta duas vezes por dia.

O problema é ter cinco relógios andando e escolher justamente aquele que marca a hora que a gente queria.

O resto é microfone.

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