Dois príncipes, uma placa e um corredor.

Um conselho atribuído a Nabucodonosor, dois filhos de peixe querendo ser donos do mar e a pergunta que ronda a eleição em Alagoas: o povo lembra da obra ou de como foi tratado?
Quem já passou uma madrugada numa cadeira de plástico, no corredor de um hospital, segurando a mão de alguém que ama, sabe que ninguém repara na placa da parede. O olho fica preso na porta, esperando o médico aparecer.
Pois é justamente essa placa, a que ninguém olha, que virou o centro da disputa pelo governo de Alagoas.
Circula por aí um conselho atribuído a Nabucodonosor II, rei da Babilônia, ao filho: “não gastes o tesouro do império restaurando os monumentos e palácios que os antigos ergueram”, porque o povo vai olhar a obra pronta e aplaudir o rei antigo. “Ergue os teus próprios monumentos a partir do solo.” O detalhe que dá sabor à história é que, nos tijolos da Babilônia, o rei mandava gravar o próprio nome e, logo em seguida, o nome do pai. O resto fica de dever de casa para o leitor curioso.

Em Alagoas, o conselho caiu no ouvido de dois filhos de peixe querendo ser donos do mar. Renan Filho, 46 anos, filho de Renan Calheiros, foi prefeito, deputado, governador duas vezes e ministro. JHC, 39, filho do ex-deputado João Caldas, foi deputado estadual, deputado federal e eleito duas vezes prefeito de Maceió. As trajetórias andam lado a lado, separadas por oito anos, e as pesquisas não conseguem desempatar: a Paraná Pesquisas coloca JHC com 47,2% contra 41,3% de Renan Filho, enquanto a DataTrends mostra os dois empatados com 43%.
E a briga, desta vez, é de hospital. Renan Filho mostra no guia oito hospitais de grande porte construídos ou iniciados nos seus governos e diz ter aberto quase 800 leitos do zero. A imprensa, porém, volta e meia registra hospital regional com falta de médico e de insumo. JHC fez diferente: em 2023, usou R$ 266 milhões da indenização da Braskem para comprar um hospital privado já pronto, que virou o Hospital da Cidade. É como se um tivesse passado oito anos acendendo o forno e o outro tivesse ido à padaria comprar o bolo pronto. Agora os dois discutem quem entende de festa.
Renan acusa o adversário de comprar por improviso e repete que saúde de verdade se faz com planejamento. Com o mesmo dinheiro, diz ele, construiu quatro hospitais. JHC responde que saúde não se mede em tijolo e cimento, e sim em cuidado com as pessoas e agilidade no atendimento. Fica a pergunta: será que Renan segue à risca o conselho do imperador, apostando que a obra erguida do chão fala por ele? E será que JHC acredita que a emoção provocada nas pessoas dura mais do que qualquer placa?
Já sentei em sala de campanha o bastante para saber que as duas apostas têm fundamento. Obra é o que o marqueteiro filma; atendimento é o que o eleitor conta no grupo da família. A foto do hospital inaugurado rende um bom programa de TV, mas a história da tia que foi atendida em vinte minutos, ou que esperou seis horas, rende mil conversas de calçada, e essas não passam no guia eleitoral. O político briga tanto pela placa porque ela é a única parte da saúde que ele controla sozinho.
Existe uma explicação para isso que vale ouro em campanha. A memória não guarda uma experiência inteira; guarda o pior momento e o jeito como ela terminou. Quem esperou horas, mas saiu acolhido, lembra de um jeito; quem foi atendido rápido e saiu destratado, lembra de outro. O psicólogo Daniel Kahneman, Nobel de Economia, mostrou isso estudando justamente pacientes de hospital e chamou a descoberta de regra do pico e do fim. Na memória de quem sofre, o prédio nem entra na conta. Por isso hospital novo sem médico vira lembrança amarga, e hospital comprado com andar fechado também.

Os dois são vaidosos, e não há pecado nisso, porque político sem vaidade é como forró sem sanfona. Um bate no peito como gestor testado, o outro como empreendedor social. No teste de perfil comportamental que as empresas usam, cairiam na mesma letra, o I de influência, gente que precisa de plateia como planta precisa de sol. E os dois têm valor político alto, desses que partido disputa no tapa. São muitas semelhanças, mas há uma diferença nítida, e ela está no olhar. Um parece querer ser amado pelos seus pares; o outro, admirado pelo povo. Quem acompanha os dois sabe dizer quem é quem.
Por isso esta eleição não é só sobre quem governa os próximos quatro anos. É sobre qual legado vai ocupar o chão. O de um e o do outro disputam o mesmo território, de frente, e não cabem os dois na mesma placa.
Filhos de peixe, querendo ser donos do mar. Mas o mar tem memória, e ela não guarda placa. Guarda quem apareceu na madrugada do corredor.
O resto é microfone.




