Nem Arthur, nem Renan: a peça que decide o governo JHC se chama Marcelo Victor.

JHC terá a coroa, mas vai precisar da Assembleia para governar. E quem comanda a Casa joga calado, tem memória longa e não deve favor a ninguém nesse tabuleiro.
Rei morto, rei posto, diz o povo. Em Alagoas, o rei já foi posto. O que ninguém sabe ainda é quem vai segurar o tabuleiro quando a coroa começar a pesar.
Faltam onze dias para o Brasil decidir o segundo turno, e o dia 25 vai mexer em muita coisa aqui, a dois mil quilômetros do Planalto. Vamos ao cenário que muita gente por aqui prefere não dizer em voz alta: Lula reeleito.
Nesse cenário, a conta das quatro cabeças vira conta de três. Alfredo Gaspar, que trocou a reeleição para a Câmara pela aposta de ser vice-presidente, acorda em 1º de janeiro sem mandato, sem caneta e com um PL alagoano que vai precisar decidir se é oposição ao governo federal ou parceiro do governo estadual. Em tempo de murici, cada um cuide de si. E o murici de 2027 vai amadurecer cedo.

JHC entra no Palácio República dos Palmares com uma pedra no sapato que não escolheu: governar um estado que depende de Brasília para quase tudo, com Brasília vestida de vermelho. Adutora, estrada, hospital, convênio… nada disso anda sem ministro assinando. E aí o jogo fica interessante, porque o homem que ele venceu nas urnas pode voltar pela porta da Esplanada. Renan Filho perdeu o governo, mas não perdeu o telefone do presidente. Com Lula reeleito, é razoável imaginá-lo de volta a um ministério, cuidando justamente dos cofres que o novo governador vai precisar abrir. A política alagoana tem dessas: o derrotado de outubro pode virar o despachante de março.
Arthur Lira, por sua vez, é homem que não se assusta com troca de governo, porque já provou que sabe negociar com quem estiver sentado na cadeira. Presidiu a Câmara com Lula no Planalto e saiu de lá maior do que entrou. A Faria Lima confia nele, Brasília o respeita, e ele joga com a paciência de quem planta coqueiro: sabe que o fruto demora, mas vem. Lula reeleito não o enfraquece. Muda apenas o tamanho da mesa.
Renan tem a porta de Brasília. Arthur tem a mesa nacional. Mas há uma porta que nenhum dos dois controla, e é por ela que o governo de JHC vai precisar passar todo santo dia.
Lá na Pérsia, quando o xadrez ainda se chamava xatranje, a peça ao lado do rei andava uma casa por vez, a mais fraca do tabuleiro. No fim do século XV, os espanhóis mudaram a regra, e aquela peça discreta passou a atravessar o tabuleiro inteiro. Virou a mais poderosa do jogo. E tem um detalhe que muito rei esquece: ela não obedece ao rei. Obedece a quem joga.
Marcelo Victor joga. Enquanto muita gente disputa holofote, foto de posse e manchete de domingo, o presidente da Assembleia Legislativa se move calado. É, desse tabuleiro inteiro, o menos vaidoso de vitrine e, arrisco dizer, o mais estratégico. Lê política internacional como quem lê o jornal da manhã, cumpre palavra empenhada, coisa rara num meio onde acordo dura até o próximo cafezinho, e nunca escondeu o respeito que tem por Lula. Mais raro ainda: não deve favor a ninguém nessa mesa.
Junte as peças. JHC vai precisar da Assembleia para aprovar orçamento, projeto e empréstimo, e vai precisar de Brasília para pagar a conta. Poucos nomes em Alagoas conversam com as duas portas ao mesmo tempo. A política tem memória longa, e o deputado que um dia apontou o dedo para a Assembleia agora vai precisar pedir passagem por ela. Quem quer ser amigo do rei vai fazer fila na porta do Palácio República dos Palmares. Quem entende de poder sabe que o caminho passa pela Assembleia… e que Marcelo não tem pressa.
Porque, nesse tabuleiro, a dama tem endereço: é a Assembleia Legislativa. É ela que atravessa o jogo de ponta a ponta, aprova, segura, destrava ou deixa esperando. E dama não anda sozinha. Quem move essa peça é a mão de Marcelo Victor. JHC pode ter a coroa, mas quem já jogou xadrez sabe: rei que não tem a dama do seu lado passa a partida inteira fugindo.
O resto é microfone.




