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Precisamos dos Grandes para Alimentar o Mundo e dos Diferentes para Alimentar a Alma

Redação08 de janeiro de 2026
Precisamos dos Grandes para Alimentar o Mundo e dos Diferentes para Alimentar a Alma

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

Forbes, a mais conceituada revista de neg?cios e economia do mundo.

Passei todo o m?s de setembro e metade de outubro de 2025 fazendo uma viagem para conhecer profundamente o agroneg?cio e os sistemas de produ??o de comida ao redor do mundo. Foram quatro continentes, seis pa?ses, muitas cidades diferentes e mais de 50 visitas entre fazendas, ind?strias, confer?ncias e reuni?es com pessoas do setor.

Essa viagem faz parte do Programa Nuffield, do qual eu sou uma 2025 Scholar. Um dos grandes objetivos da Nuffield ? a forma??o de jovens lideran?as no Agroneg?cio por meio de experi?ncias internacionais atrav?s do programa de bolsas. A proposta ? entrar em contato com outras realidades ao redor do mundo, compartilhar viv?ncias e trazer solu??es para seu pr?prio pa?s.

Minha pesquisa ? sobre comunica??o. Como podemos melhorar a imagem do agroneg?cio no Brasil conectando o campo e a cidade? As pessoas perderam a conex?o entre o que consomem e a respectiva origem.

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Cesmac

Sendo assim, eu acredito que essa revolu??o passa pela capacidade de contar as boas e verdadeiras hist?rias que existem dentro das porteiras, por uma grande demanda do p?blico urbano em busca de experi?ncias reais na ?rea rural e pela necessidade da ind?stria assumir um protagonismo no elo entre produtor e consumidor.

Realidades distintas no agro mundial

Visitar pa?ses com realidades t?o distintas ? um verdadeiro desprendimento das nossas pr?prias cren?as. Meu maior objetivo era entender sistemas sem julgar se estava certo ou errado. Resposta, ali?s, ? o que me faltou diversas vezes. Seja me deparando com o estrago de um governo corrupto nas Filipinas, a crise h?drica e pol?tica na Calif?rnia e o plano ousado de produzir 30% de comida localmente at? 2030 em Singapura mesmo sem terras e acessos a recursos naturais.

Foi depois de visitar o gigantesco frigor?fico da Thomas Foods na Austr?lia, a cria??o de patos nos fundos de casas sem saneamento b?sico nas Filipinas, porcos org?nicos criados nos campos verdejantes do interior da Dinamarca, a maior fazenda de leite que visitei na vida h? algumas horas de S?o Francisco, na Calif?rnia, nos Estados Unidos, e a ?nica produ??o de caviar no Chile que eu endossei o que venho pensando h? algum tempo. Precisamos dos grandes para alimentar o mundo e dos diferentes para alimentar a alma!

Os grandes e os diferentes na alimenta??o

A grande verdade ? que n?o existe uma ?nica solu??o, especialmente quando falamos de t?picos sens?veis para o novo consumidor como sustentabilidade ou bem-estar animal.

A resposta errada ? f?cil de ser identificada, mas ? imposs?vel definir o que ? certo sem considerarmos in?meras camadas relacionadas a clima, acesso a recursos naturais, pol?tica, subs?dios, poder de compra, h?bitos de consumo, m?o de obra, seguran?a alimentar e acesso ? educa??o.

Os grandes t?m poder de barganha, vantagem de escala econ?mica, acesso a conhecimento, novas tecnologias, contratos bem amarrados, suporte de parceiros, capacidade de investimento constante e, dessa forma, conseguem otimizar o uso de recursos entregando grandes produ??es de forma eficiente.

Enquanto os diferentes prometem e entregam um produto que vai al?m do valor nutricional, muitas vezes com um custo de produ??o mais alto e n?o necessariamente com a maior produtividade por hectare. J? se sabe que o consumidor est? disposto a pagar mais por um alimento com prop?sito, rastreabilidade total, valores claros e que garanta uma sustentabilidade ambiental e social no processo produtivo.

Sabemos tamb?m que em um planeta com uma popula??o crescente e recursos finitos, precisamos dos grandes para suprir a necessidade da alimenta??o em massa. A responsabilidade sobre o uso eficiente de recursos naturais nunca foi t?o necess?ria.

Por outro lado, sabemos o qu?o fundamental ? o papel de produtores rurais na preserva??o e impactos no sistema. A produ??o org?nica, isolada e baseada apenas no certificado, j? n?o serve e n?o convence o consumidor.

Na busca do caminho do meio

Acredito que estamos vivendo o momento que entendemos que ? importante encontrar um meio de caminho. Se faz necess?rio fazer o melhor uso poss?vel de terra e ?gua para garantir a maior e mais segura produ??o por hectare poss?vel. Al?m disso, o futuro ? sobre dados. N?o basta informar no r?tulo que a carne ? carbono zero, ? preciso provar e comprovar.

Na Dinamarca, um pa?s pequeno que produz uma quantidade de alimentos capaz de alimentar tr?s vezes os dinamarqueses, j? se fala sobre a tend?ncia de mais sistemas intensivos justamente pela combina??o de efici?ncia, tecnologia e medi??o de dados, mas, desde que sejam sistemas intensivos totalmente alinhados ?s demandas do novo mundo.

Ali?s, o formato intensivo ? justamente para comprovar por meio de informa??o que existe sustentabilidade ou bem-estar na pr?tica em quest?o.

A Holanda possui um dos sistemas agroalimentares mais eficientes e intensivos do mundo, com uma quantidade de animais por hectare muito maior que a grande maioria de pa?ses europeus.

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Enfrentam a crise do nitrog?nio com seu grande impacto no solo, nas ?guas e na biodiversidade do pa?s devido ao excesso de am?nia proveniente do esterco animal, al?m de fertilizantes e m?quinas.

O pa?s se viu diante de press?es sociais provocadas por uma popula??o extremamente esclarecida que vive sob um elevado PIB per capta e com um IDH que coloca a Holanda entre os top 10 do mundo versus a tradicional import?ncia da agricultura para o pa?s.

Nova agenda para produ??o agroalimentar

Da crise e dos protestos, surgiram novas medidas e leis. Hoje, gaiolas em bateria foram banidas nos sistemas de produ??o de ovos, da mesma forma que existem regras para su?nos gestantes, limita??o de projetos, bloqueio de licen?as, aumento de taxas, custos e a obrigatoriedade de reduzir drasticamente o n?mero de animais para consequentemente reduzir o nitrog?nio.

Algo parecido est? acontecendo na Dinamarca com o plano de implementar a Green Agenda. Ainda sobre esse pa?s n?rdico, visitei uma produ??o de carne org?nica e a pr?pria produtora afirmou que poderia implementar pr?ticas ainda mais sustent?veis em seu sistema, mas o consumidor n?o est? preparado financeiramente para tal.

? a costura entre demanda de consumo, produtividade, efici?ncia, press?o social, seguran?a alimentar e pol?ticas p?blicas para adaptar os sistemas de produ??o de comida exigidos nos novos tempos.

O novo farming n?o ? "apenas" sobre produzir comida, mas ? sobre ser eficiente, regenerativo, sustent?vel e sempre com bem-estar animal.

Por outro lado, como falar sobre redu??o de emiss?es territoriais de gases de efeito estufa e uso de Bovaer na dieta das vacas (pr?tica adotada em larga escala ano passado na Dinamarca) em um pa?s como as Filipinas que produz cerca de 1% da demanda nacional de leite e onde quase 1/3 da popula??o enfrentou algum tipo de inseguran?a alimentar moderada ou grave em 2023?

Aprendizados pelo caminho

Um dos maiores aprendizados, independente da realidade, ? o erro da falta de apoio dentro do pr?prio setor. ? quando a pr?pria cadeia se volta contra outros produtores para autovaloriza??o de produto.

O boato ? que o leite org?nico passa por esse momento na Calif?rnia. Um discurso constante sobre ser a melhor e ?nica pr?tica poss?vel hoje j? n?o convence mais o consumidor esclarecido. As g?ndolas confirmam essa realidade: leite cru engarrafado (o novo queridinho do californiano pela proposta de valor natural, saud?vel e regenerativa) sendo vendido pelo dobro do leite org?nico.

Tive a sorte de aprender, ainda muito nova, uma li??o valiosa sobre ouvir diferentes perspectivas com meu pai. Esse exemplo foi arrastado quando est?vamos em uma palestra sobre a import?ncia do leite e o evento foi invadido por um grupo de veganos que interrompia a palestra e levantava cartazes contra a pr?tica.

No final do evento, enquanto o grupo que protestava aguardava a pol?cia, meu pai foi participar da roda para entender qual era o ponto de vista.

Durante um dos 17 voos dessa volta ao mundo, estava assistindo a s?rie Yellowstone e me lembrei dele. No epis?dio 5 da temporada 4, John Dutton convida uma ativista para conhecer o seu rancho com a frase: "gostaria que voc? entendesse o meu mundo".

A necessidade de adapta??o para um mundo mais sustent?vel ? indiscut?vel. Felizmente, temos diversas formas e respostas para chegarmos l?, basta estarmos abertos para elas e entendermos que essa luta n?o acontece no mesmo tempo e espa?o nos diferentes cantos do mundo. Da mesma forma que para criar uma crian?a precisamos de uma aldeia inteira, essa revolu??o n?o ser? feita sozinha.

*Diana Jank ? uma publicit?ria da terceira gera??o de produtores de leite em Descalvado (SP), na fazenda Agrindus. Ela ? a diretora de marketing da marca Letti A².

Os artigos assinados s?o de responsabilidade exclusiva dos autores e n?o refletem, necessariamente, a opini?o de Forbes Brasil e de seus editores.

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