segunda-feira, 07 de setembro de 202618:05:16
Sol
TV Alagoas
InternacionalNepal busca 100 trabalhadores presos após enchentes devastadorasCulturaExposição 'Amazônicas' no CCBB RJ destaca arte de mulheres da AmazôniaGeralAmbulantes buscam sustento durante o Desfile de 7 de Setembro em BrasíliaGeralDesfile cívico-militar do Dia da Independência ocorre em BrasíliaCulturaRádio Nacional comemora 90 anos com programação especial de memóriasGeralPrescrição de produtos veterinários sujeitos a controle especial é tema de palestra para médicos-veterinários e estudantes da área em ArapiracaPolíticaPresidente do TRE/AL visita Zonas Eleitorais no sertão e em ArapiracaPolíticaJustiça Federal suspende mina de lítio em Minas GeraisPolíticaFachin aguarda explicações de ministros sobre crise no STFGeralPúblico acorda cedo para assistir ao desfile de 7 de Setembro em BrasíliaPolíticaHenrique Chicão é investigado pelo Ministério Público Eleitoral por suposta ocultação de patrimônioGeralBLOG GG SAMPAIO | ALAGOAS PRECISA PENSAR ALÉM DO AGORA

O Que Estava na Retina de um Puma Fotografado em Torres Del Paine

Redação11 de julho de 2025
O Que Estava na Retina de um Puma Fotografado em Torres Del Paine

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

Quando vemos uma fotografia de um animal selvagem que nos olha nos olhos, muitas vezes não temos ideia do que estava na retina desse animal quando foi captada essa fotografia. Por isso, trago um pouco da minha experiência nessa área contando o que vivi nesse último mês de junho, quando busquei o ver um puma em seu habitat natural, na patagônia chilena.

Viagens dedicadas à fotografia de natureza são sempre um tanto complexas e envolvem diferentes meios de transporte. Essa minha recente viagem teve início em São Paulo, num voo entre Guarulhos a Santiago, adicionada a outro trecho até Punta Arenas – capital da Região de Magalhães. Dali a viagem seguiu de carro até Cerro Castillo.

Com cravos colocados nos pneus devido às condições de gelo na estrada durante o período de inverno, a viagem foi cômoda porque, diferentemente das vezes anteriores em que fiz esse caminho, esse trecho de estrada agora já está asfaltado. Em Cerro Castillo, as acomodações não poderiam ser mais perfeitas: um lugar aconchegante e com aquecimento (a temperatura externa era de -3°C). Não era exatamente de um hotel, mas uma pousada muito acolhedora, decorada com o tema rural em todos os detalhes.

Publicidade
Cesmac

Éramos um pequeno grupo de seis fotógrafos de natureza, liderados pelo profissional Renato Machado, que previamente montou todo o roteiro. A organização dele foi perfeita. Os roteiros variavam todos os dias e uma van com um motorista experiente estava sempre à nossa disposição. Os ingressos de acesso ao Parque Nacional Torres del Paine (que não são baratos) também estavam sempre à mão. A vantagem de viajar em pequenos grupos é ter mais flexibilidade para pararmos para fotografar em oportunidades belíssimas e surpreendentes pelo caminho; nesse caso, tendo ao fundo a épica paisagem da Cordilheira dos Andes.

Nos cinco dias que ficamos em Cerro Castillo, optamos por sair da pousada sempre antes do nascer do sol. No inverno, isso se traduz pela tranquilidade de podermos ficar no café da manhã até as 8h00 (horário raro numa viagem de observação de natureza, sendo que normalmente começa muito mais cedo). Mesmo saindo nesse horário, víamos o dia clarear lindamente, já na estrada, tendo como cenário a moldura da cordilheira – exceto nas manhãs de céu encoberto. Havia um radiocomunicador no carro, que estava sempre ligado, conectado com os trekkers que acompanhavam os movimentos dos pumas na área do parque. Esse detalhe foi muito valioso, visto a enorme extensão do parque e, sem esse sistema, seria praticamente impossível vermos esses felinos de perto. Na área do parque os pumas estão seguros – diferentemente das áreas no entorno do parque, dedicadas à pecuária, onde os criadores de ovelhas, quando têm seus rebanhos atacados, seguem eliminando os felinos, uma vez que não há uma regulamentação específica para sua proteção.

Todos os dias seguíamos nosso roteiro montando nossos tripés e fotografando cachoeiras (quase congeladas) e muitas vezes os guanacos que embelezavam ainda mais as majestosas Torres del Paine. Algumas raposas, pequenas e ariscas, cruzavam o nosso caminho de vez em quando, enquanto espécies de pássaros da patagônia também apareciam nas trilhas e nos chamavam para um clique. Nesse caso, estacionávamos e descíamos da van, com calma e em silêncio, para fotografá-los. Foi uma viagem tranquila e de contemplação, até que ouvíamos a palavra "puma" pelo rádio. O aparelho VHF estava estrategicamente colocado sobre o console do carro, e a palavra "puma" nos fazia entrar na van correndo, para alcançarmos o local descrito na comunicação.

Quando chegávamos no ponto indicado para a observação do animal, normalmente o encontrávamos dormindo e cerca de dez a 20 fotógrafos, que davam sinais de estarem ali há bastante tempo. O grupo de fotógrafos era composto por profissionais vindos de diferentes partes do mundo. Nos uníamos a eles e, juntos, aguardávamos em silêncio pelo despertar do puma. Juntos, sentíamos o mesmo frio do ambiente; juntos, sentíamos a garoa gelada cair e juntos buscávamos nos proteger do vento constante que cortava o nosso rosto e congelava os nossos dedos. Nos cobríamos como era possível e permanecíamos firmes na tentativa de um bom registro do maior felino das américas.

A fotografia de natureza requer, acima de tudo, o exercício de paciência. Numa dessas ocasiões em que o puma dormia profundamente, contamos cerca de 5 horas de espera até ele acordar. Nesse período passaram turistas, alguns em carros próprios e outros, em grupos maiores, desembarcavam de vans. Diferentemente de nós, os turistas convencionais não têm muita paciência; eles descem do carro, tiram rápidas fotos do animal, mesmo que ele esteja dormindo, e vão embora. Nós, profissionais da fotografia, ficávamos na tentativa de encontrar uma posição ainda melhor para uma imagem, nos limitando à pequena área autorizada pelos guardas do parque.

Publicidade
Cesmac

Me questiono sobre o que o puma deve pensar quando acorda e encontra, diante de si, uma plateia a observá-lo. Lembro de um indivíduo que demorou muito para acordar e, quando despertou, nos olhou pelo canto dos seus olhos com indiferença. Já nós, fotógrafos, acompanhamos eufóricos o seu bocejo, sua espreguiçada e o giro completo que fez para a observação do seu entorno. Finalmente ele olhou diretamente para os nossos olhos (finalmente um contato visual!). Ele não pareceu se incomodar ao ver, diante de si, mais de 20 pessoas portando tripés e grandes lentes; tampouco se incomodou com a enxurrada de disparos e cliques vindos das câmeras de cada um desses "heróis da resistência" que permaneciam ali, aguardando por horas, até que ele levantasse a cabeça – eu me incluo nesse grupo. Nitidamente acostumado com os seres humanos, ele não deu qualquer sinal de preocupação com a nossa presença. Pelo contrário: nós é que estávamos atentos para uma eventual reação contrária por parte dele.

O puma voltou a se deitar e o deixamos dormir outra vez. No caminho de volta, como que num passe de mágica, fomos brindados pela neve que inesperadamente começou a cair com intensidade, transformando toda a paisagem num cenário branco. A nevasca tornou a lembrança desse dia mais-que-perfeita e a sensação de que todo esforço valeu a pena. O contato visual com um animal selvagem é uma sensação indescritível.

Até a próxima coluna!

*Marina Bandeira Klink é uma fotógrafa de natureza brasileira, com nome reconhecido especialmente por seus registros fotográficos das regiões mais remotas do globo. Atualmente, Marina propõe novas experiências para viajantes e fotógrafos que, assim como ela, deseja fazer registros em destinos não convencionais. Ela publicou 3 livros de fotografia e 2 livros infanto-juvenis – ambos adotados por escolas particulares e pela rede pública de ensino de todo o país. Além disso, seu trabalho está presente em livros didáticos, jornais e revistas e em exposições fotográficas no Brasil e exterior. Em suas palestras Marina relata experiências vividas em viagens nada usuais abordando temas como coragem para uma mudança de Mindset, desafios e superação, liderança, empreendedorismo e meio ambiente.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Tags:
Marina bandeira klinkColunasForbeslifeColuna

Continue Lendo