Júlia Nunes não herda o crime do pai.

A culpa pelos crimes atribuídos ao pai não passa para a filha. Mas a candidata que dizia não ter pai deve ao eleitor a própria versão da história.
A sabedoria popular diz: filho de peixe, peixinho é. Cresci ouvindo esse ditado e demorei para entender que ele serve para peixe, não para gente. Filho tem nome, escolhas e história próprios. Se a culpa passasse de pai para filho, ninguém neste mundo teria direito de começar de novo.
Nesta reta final, um vídeo cobra Júlia Nunes por causa do pai, a quem são atribuídos crimes cruéis. Sobre esses crimes não cabe relativização. A dor das vítimas vem primeiro e não se negocia. Mas uma coisa precisa ficar clara: o crime é dele, só dele. Cobrar de Júlia a pena moral pelo que o pai fez seria cometer uma segunda injustiça.
Antes de seguir, o leitor merece saber de onde eu falo. Fui consultora da campanha de Júlia no início desta eleição e hoje não trabalho mais para ela. Não escrevo por contrato. Escrevo pelo que vi, e também pelo que não dá para deixar de ver.

Porque há uma parte da cobrança que é legítima, e ela não diz respeito ao sangue, e sim às escolhas. Júlia sempre disse em público que não tinha pai. Hoje se sabe que ele mora com ela e que ela atuou como advogada dele. Isso não a torna cúmplice de nada. Uma filha pode acolher o pai, pode ter vergonha, pode ter guardado essa dor para si. Tudo isso é humano. Mas quem pede o voto do povo não pode deixar que outros contem a sua história no seu lugar. Em Alagoas, esconder parente é mais difícil do que esconder voto: aqui todo mundo conhece a família de todo mundo.
Em Ezequiel 18:20 está escrito que "o filho não levará a iniquidade do pai". É uma regra de justiça que vale para Júlia. E vale também o outro lado: cada um responde pelos próprios atos. O crime é do pai. O silêncio foi dela.
Nada disso apaga o que Júlia construiu. São 18 anos de atuação em defesa das mulheres e 15 anos à frente da AME, a associação que ela fundou para isso. Eu vi de perto a coragem dela nessa causa. Justamente por isso, ela tem mais a ganhar falando do que se calando. Quem passou a vida pedindo que as mulheres rompam o silêncio sabe o preço que ele cobra.
Tem mais uma coisa que não quero deixar passar. Nesta eleição, vi mulheres dos dois lados, no campo de Renan e no de JHC, terem a vida pessoal revirada para diminuir a trajetória delas. Toda crítica merece ser examinada pelo que traz de concreto. Mas a repetição do método deixa uma pergunta no ar: por que, quando uma mulher chega perto do poder, a biografia inteira dela vira arma?
Minha avó também dizia que uma mão não tapa o sol. O passado do pai não some porque Júlia o perdoou, e a trajetória dela não some por causa do passado dele. Mas a pergunta também não some enquanto ela não responder. Justiça de verdade sustenta as duas verdades, e o eleitor merece ouvir as duas da boca dela.
O resto é microfone.




