Arthur Lira e a arte de esperar: o senador que não tem pressa porque já sabe aonde quer chegar

Arthur Lira chega ao Senado sem pressa pela presidência da Casa, e é justamente essa paciência que revela o tamanho da sua estratégia
Diz o sertanejo que quem planta tâmaras não colhe tâmaras. A tamareira demora tanto a dar fruto que o homem semeia para o filho, às vezes para o neto. Em Alagoas, pouca gente entende esse provérbio tão bem quanto a família Lira, e talvez ninguém o pratique com tanta elegância quanto Arthur.
Basta olhar o calendário. Em 2010, Biu de Lira foi eleito senador e o filho Arthur chegou à Câmara. Dezesseis anos depois, a cena se repete com outra geração: Arthur vai ao Senado com votação recorde, e Alvinho, aos 20 anos, torna-se o deputado federal mais jovem da história do país, o mais votado de Alagoas, com mais de 172 mil votos, superando uma marca que pertencia ao atual presidente da Câmara, Hugo Motta. Isso não é sorte nem acaso de urna. É obra de quem planta com método e sabe esperar a estação certa.
E é esse mesmo método que explica por que Arthur não vai disputar a presidência do Senado em fevereiro de 2027. Quem assume nessa data governa por dois anos e não pode ser reconduzido na mesma legislatura. Para muitos, seria a glória imediata. Para Lira, seria colher a fruta verde. Ele prefere chegar, conhecer a Casa, ocupar os espaços onde as decisões de verdade amadurecem, como a CCJ, que conhece bem desde os tempos de Câmara, e tecer as alianças uma a uma, com a paciência de quem borda à mão.

Há um personagem que Tolstói imortalizou em Guerra e Paz: o marechal Kutuzov, comandante russo diante de Napoleão. Enquanto os generais jovens queriam batalha a qualquer custo, o velho Kutuzov repetia que os dois guerreiros mais fortes do mundo são a paciência e o tempo. Foi chamado de lento, de hesitante, de velho demais. Napoleão entrou em Moscou e se sentiu vitorioso. Semanas depois, o inverno e a estratégia do marechal mostraram quem de fato estava jogando. Kutuzov não venceu porque correu. Venceu porque soube quando não correr.
Arthur Lira tem algo desse marechal. Presidiu a Câmara em anos de tempestade e saiu respeitado por gregos e troianos, coisa rara num país onde até pastel de feira divide opinião. Conversa com o plenário e com o mercado na mesma língua, e a Faria Lima o enxerga como interlocutor confiável, alguém que entende de orçamento tanto quanto de voto. Não é homem de castelo de cartas, desses que caem no primeiro vento de Brasília. Suas escolhas têm alicerce, e alicerce, como todo pedreiro sabe, é a parte da obra que ninguém vê e que segura todas as outras.
Enquanto muitos em Brasília já discutem quem vai sentar na cadeira em 2027, Arthur parece olhar mais adiante, para o momento em que a fruta estiver no ponto. Tem quem chame isso de frieza. O sertão chama de sabedoria: o apressado come cru, e o paciente escolhe a mesa.
O resto é microfone.




