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O gigante que não estava no palco

Wanessa Costa11 de setembro de 2026
O gigante que não estava no palco

No primeiro debate para o governo, JHC trouxe para o ringue quem não disputava a luta. E entregou o dia seguinte de bandeja.

No interior de Alagoas, menino aprende cedo duas lições que escola nenhuma ensina: não se cutuca onça com vara curta, e não se fala de homem que não está na sala. A primeira é questão de sobrevivência. A segunda é questão de honra. Na quinta-feira à noite, diante das câmeras da TV Gazeta, JHC esqueceu as duas de uma vez só.

O primeiro debate para o governo do estado tinha dois lugares no palco, o dele e o de Renan Filho. Mas JHC resolveu puxar mais gente para o ringue. Ao atacar o adversário, jogou no mesmo balaio da corrupção o grupo de Renan, citando o governador Paulo Dantas e o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victor. Marcelo não tinha microfone, não tinha réplica, não tinha tempo de resposta. Tinha coisa melhor: o dia seguinte.

E o dia seguinte chegou em forma de carta aberta. Marcelo foi buscar Nelson Rodrigues para a epígrafe, afirmou que honra os compromissos que assume e fechou com duas palavras que qualquer alagoano entende sem dicionário: “És minúsculo!”. Quem fala o que quer ouve o que não quer. O ditado é velho, mas tem político que ainda aprende na marra.

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Não é papel desta coluna julgar ninguém; isso é trabalho de juiz. O papel aqui é ler o movimento. E o movimento, visto do bastidor, foi um erro de manual.

Debate é ringue de dois cantos. Cada candidato tem seu tempo, sua réplica, sua tréplica, e o eleitor em casa faz as vezes de juiz. Quando um dos lutadores aponta o dedo para alguém fora das cordas, acontecem três coisas, e nenhuma é boa para quem apontou. O citado ganha direito de resposta no terreno dele, na hora dele e com as palavras dele. A conversa do dia seguinte deixa de ser a proposta de quem falou e passa a ser a resposta de quem foi falado. E o eleitor do interior, que tem o código de honra afiado como peixeira, percebe que alguém bateu em quem não podia se defender ali. Isso, por aqui, nunca pegou bem.

Dias antes, é verdade, Marcelo já tinha provocado JHC ao dizer que ninguém entrega caminhão a quem não sabe dirigir. Se a citação no debate foi troco, foi troco dado no balcão errado. Minuto de debate é a moeda mais cara de uma campanha, e gastá-lo com quem não disputa o mesmo cargo é pagar caro por mercadoria que não se leva para casa. O debate era de dois, a repercussão virou de três, e o terceiro, que nem estava no estúdio, ficou com a última palavra. É como levar a namorada ao forró e passar a noite discutindo com o cunhado pelo telefone.

Os grandes estrategistas já tinham avisado. Sun Tzu ensinou, há mais de dois mil anos, que diante de um inimigo unido a tarefa do estrategista é dividi-lo. JHC fez o caminho contrário. Pegou um grupo que tem suas costuras, suas vaidades e suas disputas internas, como todo grupo tem, e deu a ele um motivo para cerrar fileiras. Nada une mais uma aliança do que um ataque vindo de fora.

Maquiavel foi ainda mais seco. No terceiro capítulo de O Príncipe, lembra que os homens se vingam das ofensas pequenas, porque das grandes não conseguem. Não é conselho para ofender mais; é aviso de que ofensa pequena contra homem grande é o pior negócio da política. Traduzindo para o alagoano de feira livre: não se atira em onça com espingarda de chumbinho. Arranha, irrita e deixa a onça acordada.

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E que onça. Costumo dizer que Marcelo Victor é um improvável. Filho de ex-deputado, é verdade, mas sobrenome em política é ponto de partida, nunca garantia de chegada, e Alagoas está cheia de herdeiros que não passaram do primeiro degrau. Ninguém imaginava que aquele rapaz de Palmeira dos Índios tivesse tanto poder de articulação. Marcelo não surpreendeu apenas os dinossauros da política. Adestrou todos eles. À frente da Assembleia desde 2019, fez do mandato um exercício de harmonia entre os Poderes e entre os poderosos, numa terra onde harmonia costuma durar até a próxima eleição.

Palmeira dos Índios, aliás, tem tradição com a palavra. Foi lá que Graciliano Ramos foi prefeito, antes de o Brasil descobrir o escritor, e foi ele quem deixou dito que a palavra foi feita para dizer, e não para enfeitar. Marcelo parece ter levado a sério a lição de quem governou a mesma cidade. No bastidor, onde não tem câmera nem plateia, ele é conhecido e reconhecido como homem que cumpre o que combina. E quem circula por bastidor de campanha sabe: palavra dada é a única moeda que não sofre inflação.

Não é homem de palco. Entra na história não como alguém que ama o poder, mas como alguém que sabe usá-lo, e a diferença é enorme. Quem ama o poder faz barulho com ele. Quem sabe usá-lo põe o poder para trabalhar em silêncio. Sun Tzu de novo: a vitória mais alta é aquela que se conquista sem precisar lutar. É assim que se adestra dinossauro. Não é no grito; é na conversa.

JHC gosta tanto da palavra gigante que batizou até creche com ela. Faz bem, a palavra é bonita. Mas em política gigante não é nome de programa nem número de seguidor. É o tamanho da confiança que os outros depositam em você quando a porta se fecha. Nessa régua, o gigante da política alagoana de hoje não estava no palco da TV Gazeta. E foi justamente por não estar lá que terminou a semana maior do que começou.

Em debate, a regra é simples como conselho de avó: brigue com quem está na sua frente. Quem traz gente de fora para a briga pode até ganhar a manchete da noite, mas entrega o dia seguinte de bandeja.

O resto é microfone.

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