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Nova espécie de microrganismo é identificada em vulcão ativo na Antártida por brasileiras

Redação16 de maio de 2026
Nova espécie de microrganismo é identificada em vulcão ativo na Antártida por brasileiras

Pesquisadoras do Instituto Oceanográfico (IO) da Universidade de São Paulo (USP) identificaram uma nova espécie de arqueia em um vulcão ativo na Antártida.

Pesquisadoras do Instituto Oceanogr?fico (IO) da Universidade de S?o Paulo (USP) identificaram uma nova esp?cie de arqueia em um vulc?o ativo na Ant?rtida.

O microrganismo unicelular da fam?lia Pyrodictiaceae foi encontrado em uma fumarola da Ilha Deception, local onde gases quentes de origem vulc?nica escapam do solo em temperaturas que ultrapassam os 100°C, apesar de o ambiente ao redor ser cercado por gelo e neve.

O material gen?tico da arqueia foi recuperado a partir de amostras coletadas em sedimentos da fumarola e, posteriormente, analisado por meio de ferramentas de sequenciamento e reconstru??o gen?mica. A partir desse trabalho, a equipe conseguiu identificar caracter?sticas ligadas ? sobreviv?ncia do organismo em condi??es extremas.

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A professora Amanda Bendia, do IO, atua na ?rea de ecologia e evolu??o microbiana em ambientes marinhos extremos, com foco em oceano profundo e Ant?rtida. Em 2014, ela participou de uma expedi??o cient?fica do Programa Ant?rtico Brasileiro a bordo do Navio Polar Almirante Maximiano, ocasi?o em que as amostras foram coletadas na Ilha Deception.

Na ?poca, Bendia era doutoranda no IO e era orientada pela professora Vivian Pellizari, considerada pioneira no Brasil nos estudos de microrganismos que vivem em condi??es extremas. Anos depois, o material gen?tico sequenciado voltou a ser analisado e revelou um novo g?nero e esp?cie de arqueia da fam?lia Pyrodictiaceae. A nova esp?cie recebeu o nome de Pyroantarcticum pellizari, em homenagem ? Pellizari.

Tamb?m participaram do estudo Ana Carolina Butarelli, doutoranda em microbiologia pelo Instituto de Ci?ncias Biom?dicas (ICB) da USP e pesquisadora do Laborat?rio de Ecologia Microbiana (Lecom) do IO, e Francielli Vilela Peres, p?s-doutoranda em Oceanografia Biol?gica no instituto.

Expedi??o realizada em 2014 no Navio Polar Almirante Maximiano levou pesquisadores brasileiros at? a Ant?rtida ? Imagem: Arquivo pessoal

Reconstru??o gen?tica permitiu descoberta

  • A identifica??o do microrganismo foi poss?vel por meio da t?cnica de montagem de metagenome-assembled genome (Mags);
  • O m?todo permite reconstruir genomas a partir de dados de sequenciamento obtidos diretamente de amostras ambientais, sem necessidade de cultivo pr?vio em laborat?rio;
  • Segundo as pesquisadoras, a t?cnica ? especialmente importante para organismos hiperterm?filos, capazes de sobreviver em temperaturas acima de 60°C e que frequentemente n?o conseguem ser cultivados em laborat?rio;
  • "Cada organismo presente na amostra tem um genoma, e muitas vezes temos milh?es de microrganismos no material. Ent?o, imagine ter que segmentar e sequenciar o DNA para reconstruir o genoma desses seres", explicou Butarelli ao Jornal da USP;
  • O dom?nio Archaea re?ne microrganismos unicelulares procariontes, sem n?cleo celular, semelhantes morfologicamente ?s bact?rias, mas geneticamente e bioquimicamente distintos tanto delas quanto dos eucariontes, grupo que inclui animais, plantas, fungos e algas.
A consolida??o do sistema de classifica??o em tr?s dom?nios ? Bacteria, Archaea e Eukarya ? ocorreu apenas na d?cada de 1990. Por isso, as descobertas relacionadas ?s arqueias ainda s?o relativamente recentes. "A todo tempo estamos descobrindo algo novo sobre as arqueias. A Pyrodictiaceae, por exemplo, foi descoberta h? cerca de dez anos", afirmou Butarelli.

Vulc?o da Ilha Deception favorece organismos hiperterm?filos

Atualmente, a Ant?rtida possui quatro vulc?es ativos, sendo tr?s no continente e um na Ilha Deception. Segundo as pesquisadoras, os vulc?es localizados no continente atingem temperaturas de at? 65°C, condi??o considerada insuficiente para selecionar arqueias hiperterm?filas.

J? as fumarolas da Ilha Deception ultrapassam os 100°C, criando condi??es adequadas para a sobreviv?ncia desses microrganismos.

Antes da descoberta da Pyroantarcticum pellizari, outro grupo de arqueias hiperterm?filas j? havia sido identificado em fumarolas ant?rticas por pesquisadores estrangeiros. No entanto, organismos do g?nero Pyrodictium, pertencentes ? fam?lia Pyrodictiaceae, eram encontrados principalmente em fontes hidrotermais do oceano profundo.

Bendia explicou que essas fontes hidrotermais podem atingir temperaturas superiores a 400°C e oferecem elementos qu?micos essenciais para a manuten??o da vida microbiana. Ao mesmo tempo, a ?gua ao redor permanece em torno de 4°C, caracter?stica t?pica de regi?es profundas do oceano.

Segundo a pesquisadora, essas diferen?as de temperatura e press?o indicam a capacidade de sobreviv?ncia em ambientes extremos e levantam hip?teses sobre mecanismos biol?gicos capazes de permitir a adapta??o a condi??es t?o contrastantes.

Inicialmente, as cientistas acreditavam que o microrganismo encontrado pertencia ao mesmo g?nero das arqueias conhecidas em fontes hidrotermais marinhas profundas. No entanto, a arqueia identificada vive em uma fumarola de superf?cie, em ambiente polar e sob condi??es atmosf?ricas diferentes.

Mapa da regi?o
Pesquisa cient?fica na Ant?rtida ? fundamental para o entendimento do clima global, atuando como um laborat?rio natural para estudos de mudan?as clim?ticas, biodiversidade e astronomia ? Imagem: Amanda Bendia e outros autores/Academia Brasileira de Ci?ncias
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Genoma revelou mecanismos de adapta??o do microrganismo

Para classificar um novo g?nero e esp?cie, as pesquisadoras utilizaram protocolos que envolvem an?lises de filogenia, adapta??es moleculares, gen?mica comparativa e fun??es biol?gicas desempenhadas pelos organismos.

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Como os microrganismos n?o podem ser cultivados em laborat?rio, devido ? dificuldade de reproduzir artificialmente as condi??es extremas em que vivem, a obten??o de um genoma de alta qualidade se tornou fundamental. Segundo o estudo, o material analisado apresentou menos de 10% de contamina??o.

A an?lise gen?tica permitiu identificar rela??es de parentesco entre organismos e tamb?m inferir atividades metab?licas e poss?veis comportamentos.

"Quando acessamos o genoma, temos acesso a uma foto do material gen?tico, s? que n?o sabemos se aquele organismo est? realmente transcrevendo e traduzindo aquele material para produzir uma prote?na. Por?m, n?s podemos inferir que ele tem essa habilidade, j? que aquele gene est? dentro do seu genoma", explicou Butarelli.

As pesquisadoras tamb?m identificaram prote?nas relacionadas ? adapta??o ao calor extremo. Entre elas est? a girase reversa, prote?na capaz de impedir que o DNA se desnature em altas temperaturas, caracter?stica considerada comum em arqueias hiperterm?filas.

A an?lise dos genes exclusivos do genoma revelou ainda mecanismos relacionados ? ciclagem de enxofre e nitrog?nio, al?m de estruturas como c?nulas e sistemas de resist?ncia ao estresse.

Segundo o estudo, essas caracter?sticas apontam para estrat?gias de sobreviv?ncia associadas ? disponibilidade transit?ria de energia, ao estresse provocado por metais e ?s intera??es entre microrganismos presentes nos sedimentos.

As cientistas destacaram que o genoma obtido oferece informa??es relevantes sobre o potencial da vida microbiana em ambientes extremos, tema considerado importante para pesquisas em astrobiologia, bioprospec??o microbiana e estudos sobre mudan?as clim?ticas em ecossistemas polares.

"Ao tratar de um organismo que n?o ? muito estudado, ou no nosso caso, um g?nero e uma esp?cie nova, ter o genoma completo implica diretamente na quantidade de informa??es sobre esse organismo. Ent?o, a taxa de 97% de pureza no genoma ? um caminho importante para divulgar a descoberta em todo o mundo, al?m de contribuir com os bancos de dados cient?ficos", afirmou Peres.

Pesquisadora coletando amostras da terra
Nova esp?cie pertence a um dos grupos de seres vivos mais primitivos do planeta, conhecidos por viverem em ambientes extremos h? bilh?es de anos ? Imagem: Amanda Bendia/Acervo pessoal

Desafios cient?ficos e pr?ximos passos

Segundo as pesquisadoras, recuperar o DNA da amostra levou aproximadamente um ano de trabalho. Al?m das dificuldades log?sticas de pesquisa na Ilha Deception, a equipe enfrentou obst?culos relacionados ? escassez de estudos dispon?veis sobre esses microrganismos.

A an?lise laboratorial e computacional tamb?m exigiu ampla infraestrutura da universidade e conhecimento t?cnico especializado. "Apesar de parecer muito glamuroso, legal e incr?vel nosso trabalho, tamb?m existe a parte complexa de ser cientista. Estudar um organismo que ningu?m conhece ? um enorme desafio", ressaltou Ara?jo.

A esp?cie Pyroantarcticum pellizari foi submetida ao registro oficial do SeqCode, sistema internacional de nomenclatura para Archaea e Bacteria baseado em informa??es gen?ticas. O nome j? foi oficialmente reconhecido.

As pesquisadoras pretendem retornar futuramente ? Ilha Deception para realizar novas coletas na fumarola e tentar cultivar a esp?cie em laborat?rio.

O estudo, intitulado Hot life in Antarctica: a novel metabolically versatile Pyrodictiaceae genus thriving at a volcanic?cryosphere?marine interface, foi publicado na revista cient?fica ISME Communications.

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VulcãoAntártidaMicrorganismosCiência e espaço

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