Imagens geradas por Inteligência Artificial ameaçam a ciência

De manipulações em dados a artigos falsos produzidos em massa, as fraudes na literatura acadêmica não são novidade.
De manipulações em dados a artigos falsos produzidos em massa, as fraudes na literatura acadêmica não são novidade. No entanto, com o avanço da Inteligência Artificial (IA) generativa, esse problema tem se agravado ainda mais.
Cientistas forenses, conhecidos como "detetives científicos", dedicam-se a identificar e coibir falsificações em estudos acadêmicos, mas a chegada de IA sofisticada tornou esse trabalho cada vez mais complexo.
Como essas ferramentas podem criar textos, imagens e dados realistas, existe agora o temor de uma “corrida armamentista” entre fraudadores e investigadores que tentam proteger a integridade científica.

A IA generativa oferece oportunidades sem precedentes para falsificadores, que conseguem criar artigos com dados e imagens falsas, quase indistinguíveis do material legítimo.
Elisabeth Bik, especialista em análise forense de imagens, ressalta que, enquanto algumas revistas já permitem o uso de IA para gerar textos, a criação de dados e imagens artificiais ainda é vista com cautela. "Podemos permitir textos gerados por IA, mas a linha é tênue quando se trata de dados".
O impacto da Inteligência Artificial na produção de dados e imagens falsas
A geração de imagens científicas com IA é um problema crescente, especialmente porque muitas dessas imagens são tão realistas que se tornam impossíveis de distinguir a olho nu. Christopher relata que já suspeita de imagens geradas por IA em artigos diariamente, mas sem provas claras, é difícil agir.Em um caso famoso, uma imagem de um rato manipulada via IA, com características absurdas e sem sentido, foi publicada por engano, gerando repercussão e retirada rápida. Episódios como esse revelam o quanto essa tecnologia permite criar gráficos e dados falsificados de forma quase imperceptível.
Ao longo dos anos, os detetives científicos aprenderam a identificar indícios de manipulação digital, como padrões idênticos em imagens de biologia celular. No entanto, a IA torna esse trabalho mais difícil. "Vejo muitos artigos onde as imagens não parecem reais, mas isso não é prova suficiente", observa Bik. Por outro lado, sinais de textos escritos por IA, como o uso de frases típicas de chatbots, estão se tornando mais evidentes.
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Ferramentas de IA para detecção e desafios técnicos
Com a proliferação de imagens e textos gerados por IA, novas ferramentas estão sendo desenvolvidas para ajudar na detecção. Empresas como Imagetwin e Proofig estão expandindo seus algoritmos para detectar irregularidades criadas por IA em figuras científicas.
De acordo com Dror Kolodkin-Gal, cofundador da Proofig, sua ferramenta de detecção de imagens microscópicas criadas por IA foi testada com sucesso em milhares de imagens, alcançando uma taxa de acerto de 98%.
No entanto, esses sistemas ainda dependem da revisão humana para validação dos resultados, e Christopher destaca que, embora sejam limitadas, "são ferramentas valiosas para aumentar os esforços de triagem de envios".
A revista Science, por exemplo, já utiliza o Proofig para verificar a integridade das imagens nos artigos submetidos. A Springer Nature, editora da Nature, desenvolveu suas próprias ferramentas de detecção, chamadas Geppetto e SnapShot, que identificam anomalias para análise humana.
Embora esses avanços sejam promissores, especialistas alertam que há uma necessidade urgente de novos padrões e tecnologias para validar dados e imagens de maneira eficiente. A criação de marcas d’água invisíveis para identificar imagens capturadas por microscópios, por exemplo, pode ser uma solução, sugere Christopher.
A Associação Internacional de Editores Científicos, Técnicos e Médicos (STM), sediada no Reino Unido, lançou projetos como o United2Act e o STM Integrity Hub, voltados para enfrentar as chamadas "fábricas de artigos" – empresas que produzem pesquisas falsas em massa para atender à demanda por publicações acadêmicas. 
Ele demonstrou o quanto é fácil criar imagens falsas em minutos usando o recurso de preenchimento generativo do Photoshop, com exemplos realistas de culturas de células, manchas e tumores que poderiam facilmente passar como autênticos em artigos científicos.
A esperança de novas tecnologias para expor fraudes futuras
Apesar das dificuldades, alguns especialistas mantêm uma visão otimista. Patrick, por exemplo, acredita que, embora golpistas possam enganar o sistema atual, as tecnologias de detecção continuarão a evoluir e poderão ser capazes de expor as fraudes que hoje passam despercebidas. "Em algum momento, o que parece sofisticado hoje será visto como rudimentar", prevê ele, ressaltando que fraudadores devem estar conscientes de que suas falsificações provavelmente serão descobertas no futuro.Nesse cenário, a combinação de ferramentas tecnológicas, políticas editoriais mais rigorosas e a expertise humana são fundamentais para proteger a ciência.
Ao mesmo tempo em que a Inteligência Artificial expande as possibilidades para criar fraudes, ela também se torna uma aliada na detecção de irregularidades.
Resposta do enigma: As imagens a, d e e são de artigos científicos reais. As imagens b, c e f foram geradas pelo software de Inteligência Artificial da Proofig
Fonte: Olhardigital




