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História bíblica de Noé pode esconder um segredo em sua versão babilônica

Redação29 de agosto de 2025
História bíblica de Noé pode esconder um segredo em sua versão babilônica

Um deus decide enviar chuvas devastadoras para destruir a humanidade, mas antes alerta um homem, que constrói uma arca para salvar a si mesmo e sua família.

Um deus decide enviar chuvas devastadoras para destruir a humanidade, mas antes alerta um homem, que constrói uma arca para salvar a si mesmo e sua família. Esse enredo familiar é conhecido popularmente como a passagem bíblica da Arca de Noé, mas essa não é a sua única versão.

Descoberta em 1872 pelo arqueólogo George Smith, uma tábua de argila da Babilônia revela uma história parecida, mas com personagens de nomes diferentes. O texto escrito há 3 mil anos guarda a poesia épica de Gilgamesh, um herói que vai em busca de Utnapishtim, o "Nóe babilônico" para descobrir o segredo da imortalidade.

Nessa versão, o deus Ea envia um dilúvio para exterminar toda a humanidade, exceto Utnapishtim e sua família, que são avisados com antecedência para construir uma arca e enchê-la de animais antes da chegada das chuvas. Porém, essa história guarda um segredo.

Estátua de Gilgamesh, um herói e rei mitológico da antiga Suméria, na região da Mesopotâmia. (Imagem: Jastrow / Wikimedia Commons)

Deus babilônico enganou a humanidade, segundo historiador

Segundo o livro Duplicity in the Gilgamesh Flood, as pessoas do conto, manipuladas à ajudar na construção, podem ter sido enganadas. Escrito pelo historiador Martin Worthington, da Universidade de Cambridge, a obra de 2019 demonstra como um truque de leitura nas nove linhas da poesia pode ter levado as personagens da história a construírem a arca em troca de uma falsa promessa de Ea.

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“O que as pessoas não percebem é que a mensagem de nove linhas de Ea é um truque: é uma sequência de sons que pode ser entendida de maneiras radicalmente diferentes. Embora a mensagem pareça prometer uma chuva de alimentos, seu significado oculto alerta para o Dilúvio", explicou Worthington em um comunicado.

Encontrada há mais de 150 anos, a tábua com o mito de Gilgamesh intriga pesquisadores devido a semelhança com a história de Noé. (Imagem: Osama Shukir Muhammed Amin / Wikimedia Commons)
O truque do deus babilônico está em dois versos, com interpretações diferentes a depender da leitura: “ina šēr(-)kukkÄ«” e “ina lilâti uÅ¡aznanakkunūši Å¡amÅ«t kibāti”, segundo a transcrição do pesquisador.
  • Versão positiva: “Ao amanhecer haverá bolos de kukku (um doce de mel da cultura acadiana), à noite ele fará chover sobre vocês uma chuva de trigo".
  • Versões negativas: “Por meio de encantamentos, por meio de demônios do vento, ele fará chover sobre vocês uma chuva tão espessa quanto trigo" ou “ao amanhecer, ele fará chover sobre vocês escuridão (então) neste crepúsculo pré-noturno ele fará chover sobre vocês chuva tão espessa quanto trigo".

Trapaça divina seria uma das primeiras fake news da história

O autor notou que as pessoas do mito parecem ter entendido uma chuva literal de bolos, não um desastre iminente. Segundo o historiador, fica claro que Ea é um mestre dos discursos, capaz de enganar o povo ao brincar com o significado das palavras em uma única declaração.

"Assim que a arca é construída, Utnapishtim e sua família sobem a bordo e sobrevivem com os animais. Todos os outros se afogam. Com este episódio inicial, ambientado em tempos mitológicos, a manipulação da informação e da linguagem começou. Pode ser o exemplo mais antigo de fake news", disse o pesquisador.

O autor relatou diferenças entre a versão bíblica e mesopotâmica. Os deuses tinham motivos diferentes para suas ações. (Imagem: Bible Pictures with brief descriptions by Charles Foster, publicado in 1897, nos Estados Unidos / WIkimedia Commons)
Leia mais Embora com enredos semelhantes, o deus da história de Gilgamesh tinha motivações diferentes das do Deus bíblico. No caso babilônico, os deuses só sobrevivem porque seus adorados os alimentam. "Se a humanidade tivesse sido exterminada, os deuses teriam morrido de fome", explicou Worthington.

Para o pesquisador, o mito traz uma lição que atravessa os séculos e permanece atual. "O deus Ea manipula a linguagem para induzir as pessoas a agir em benefício próprio. Os paralelos com a sociedade contemporânea são inúmeros", concluiu o historiador.

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