Do inferno de Vênus ao oceano da Terra: o fim épico da Kosmos 482

Nas primeiras horas da madrugada deste sábado, um visitante inusitado cruzou o céu e voltou para casa após mais de meio século vagando pelo espaço.
Nas primeiras horas da madrugada deste sábado, um visitante inusitado cruzou o céu e voltou para casa após mais de meio século vagando pelo espaço. Não foi um meteoro qualquer, nem uma nave alienígena cruzando nossos céus, mas sim uma sonda bem terráquea, lançada em 1972, que finalmente completou sua jornada de volta. Trata-se da sonda soviética Kosmos 482, que deveria ter ido até Vênus, o planeta mais infernal do Sistema Solar. Só que o foguete que deveria colocá-la a caminho de Vênus teve problemas, e a Kosmos 482 acabou presa à órbita da Terra — como um fantasma metálico, silencioso e esquecido, que agora fez sua última e breve apresentação final.
Segundo a Roscosmos (agência espacial russa), a reentrada aconteceu às 03:26 da madrugada (horário de Brasília), sobre o Oceano Índico, e embora muitos tenham acompanhado e rastreado sua trajetória em tempo real, não há imagens conhecidas da reentrada até o momento. Como ela ocorreu durante o dia, é bem provável que essa cena espetacular tenha passado despercebida pelos nossos olhos — mas não sem deixar sua marca na história.
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História da Kosmos 482
Em 1961, enquanto por aqui começávamos a produzir um Fusca 100% nacional, do outro lado do mundo os soviéticos lançaram suas primeiras missões a Vênus. A Proto-Venera falhou ao tentar deixar a órbita da Terra e a Venera 1 chegou a sobrevoar Vênus, mas perdeu a comunicação devido a um superaquecimento e não conseguiu transmitir seus dados de volta para a base. Mesmo com a falha, a Venera 1 foi a primeira espaçonave construída pelo homem a sobrevoar outro planeta.
Nos anos seguintes foram outras 6 tentativas que não conseguiram alcançar o destino, até que em 1966, a Venera 2 repetiu o sobrevoo e a falha de comunicação da Venera 1. Logo em seguida, a Venera 3 se tornou a primeira a penetrar a atmosfera de outro planeta, atingindo o solo de Vênus em 1º de março daquele ano. Embora também tenha perdido a comunicação ao entrar na atmosfera venusiana, a Venera 3 marcou um ponto de inflexão na história da exploração de Vênus.
Mas foi somente em 1967, com o sucesso da Venera 4, que os soviéticos começaram a compreender a dimensão dos desafios que enfrentavam. A sonda conseguiu fazer a primeira entrada atmosférica bem-sucedida em Vênus, transmitindo dados que surpreenderam a todos. À medida que penetrava a atmosfera venusiana, seus sensores detectavam um aumento substancial na temperatura e na pressão, até perder a comunicação a 26 quilômetros de altitude, sob uma temperatura de 262 °C e uma pressão equivalente a 22 atmosferas terrestres. A Venera 4 parecia ter sido cozida em uma panela de pressão do tamanho de um planeta. 
E foi assim, após muitos fracassos, que vieram os triunfos. A Venera 7 se tornou, em 1970, a primeira sonda a pousar em outro planeta e transmitir dados de sua superfície. Por conta de uma falha no paraquedas, o pouso foi "mais intenso" do que o planejado e a sonda acabou caindo de lado. Cerca de 20 minutos depois, as comunicações foram interrompidas, provavelmente porque a cápsula foi esmagada pela enorme pressão na superfície, equivalente a 90 atmosferas terrestres. Além disso, a temperatura por lá beira os 460 °C — o que é mais quente do que Cuiabá no verão.
Em 1972 e 1975, as Veneras 8 e 9 conseguiram pousos mais bem-sucedidos e, com isso, transmitiram mais dados para a Terra, incluindo as primeiras fotos tiradas diretamente da superfície de Vênus. O céu amarelado e o solo coberto de rochas fragmentadas nos mostravam, finalmente, como o inferno deve se parecer.
A partir de então, todas as missões soviéticas a Vênus foram bem-sucedidas até a Venera 16 e suas sucessoras Vega 1 e 2. Juntas, enviaram informações valiosíssimas sobre a atmosfera, a geologia e a história do planeta. Mas foi justamente entre a Venera 8 e 9, na última missão mal sucedida do Programa Venera, que começa a história que se encerrou hoje. 
Fonte: Olhardigital




