Após mais de duas décadas sem eleger presidente, palestinos voltarão às urnas

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, anunciou nesta segunda-feira, 15, a realização de eleições presidenciais no início de 2027, encerrando um intervalo de mais de duas décadas sem votação para o cargo.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, anunciou nesta segunda-feira, 15, a realização de eleições presidenciais no início de 2027, encerrando um intervalo de mais de duas décadas sem votação para o cargo. Segundo a agência oficial palestina Wafa, o decreto também prevê eleições legislativas e para o Conselho Nacional Palestino (CNP), órgão ligado à Organização para a Libertação da Palestina (OLP).
Aos 90 anos, Abbas deveria ter deixado a Presidência em 2009, ao fim do mandato de quatro anos conquistado nas urnas em 2005. No entanto, permaneceu no cargo após adiamentos sucessivos de votações e passou a governar principalmente por meio de decretos, pelo que tornou-se alvo de críticas internas e externas. O anúncio desta segunda foi visto como uma tentativa de responder às demandas por renovação institucional e maior legitimidade política.
Fragmentação e rusga política
As últimas eleições legislativas nos territórios palestinos ocorreram em 2006. Na ocasião, o Hamas derrotou o Fatah, partido liderado por Abbas e força hegemônica da política palestina até então.O resultado aprofundou a divisão entre as facções palestinas. Desde 2007, o Conselho Legislativo Palestino, o parlamento dos territórios, deixou de funcionar regularmente, refletindo a fragmentação entre a Cisjordânia, administrada pela Autoridade Palestina, e a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas.

A convocação de novas eleições também atende às pressões de países e organismos internacionais que financiam a Autoridade Palestina e defendem reformas capazes de ampliar a representatividade das instituições palestinas. Continua após a publicidade
À AFP, o jurista Mahmoud Al-Afranji afirmou que há “vontade política” e pressão internacional para que o processo eleitoral avance. Segundo ele, porém, persistem obstáculos importantes, sobretudo a falta de garantias para a realização da votação em Jerusalém Oriental — ocupada por Israel desde 1967 — e na Faixa de Gaza.
Esses impasses já frustraram tentativas anteriores. Em 2021, Abbas chegou a convocar eleições legislativas para maio e presidenciais para julho, mas adiou ambas por tempo indeterminado, alegando não haver garantias de participação dos eleitores palestinos em Jerusalém Oriental.
Em abril deste ano, palestinos da Cisjordânia voltaram às urnas para escolher chefes de conselhos municipais, na primeira votação desde o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023. O novo cronograma anunciado por Abbas, contudo, ainda dependerá da superação de entraves políticos e territoriais que, há anos, impedem a renovação das lideranças palestinas. Continua após a publicidade
Hamas versus Fatah
O partido político Fatah foi fundado em 1959, após o êxodo palestino conhecido como Nakba, por Yasser Arafat (1929-2004) e Abbas. O Fatah é secular, ou seja, livre de dogmas religiosos. Seu nome significa "conquistar", além de ser um acrônimo para o árabe “Harakat al-Tahrir al-Filistiniya” – que em português significa Movimento de Libertação Nacional da Palestina.O partido domina a Autoridade Palestina, que manteve o controle administrativo de Gaza até 2007. A AP foi criada em meados da década de 1990 como um governo interino, enquanto aguarda a criação de um Estado palestino. Com sede na cidade ocupada de Ramallah, na Cisjordânia, exerce autogoverno nominal em partes do território.

Quando o Hamas venceu as eleições legislativas de 2006, a rivalidade entre as duas principais forças políticas da Palestina se intensificou. Rejeitando o resultado da votação, o Fatah dissolveu o Conselho Nacional Palestino e assumiu o controle apenas da AP, que tem poder administrativo parcial na Cisjordânia, ocupada por militares e colonos israelenses. Continua após a publicidade
O Fatah, ao contrário do Hamas, não é considerado um grupo extremista ou radical há décadas pela comunidade internacional.
Inicialmente, sua estratégia era libertar o território da Palestina histórica através da luta armada contra o Estado de Israel. Após a Guerra Árabe-Israelense de 1967, sob a gestão de Arafat, o Fatah se tornou o partido dominante na Organização de Libertação da Palestina (OLP), que foi classificada como uma organização terrorista pelo governo israelense por assassinatos e sequestros de civis.
No entanto, nas décadas de 1970 e 1980, o Fatah passou por mudanças radicais após sua expulsão do Líbano e da Jordânia, quando começou a fazer negociações com Israel. Após renunciar à luta armada completamente em 1990, a OLP tornou-se representante dos palestinos nas Nações Unidas. Também assinou os Acordos de Oslo com Israel, um dos maiores passos para encerrar o conflito no Oriente Médio, que levaram à criação da AP.
Hoje, enquanto o Hamas defende a resistência armada para a destruição total de Israel, o Fatah reconhece o Estado judeu e propõe negociações pacíficas para uma solução de dois Estados. A reconciliação entre os dois grupos foi impulsionada pela intensificação da guerra em Gaza. Publicidade
Fonte: Veja Abril




