O que Budapeste, sede da final da Champions, tem a ver com o futebol brasileiro

Budapeste recebe neste sábado, 30, uma final de Champions League num dos lugares mais importantes da história tática do futebol.
Budapeste recebe neste sábado, 30, uma final de Champions League num dos lugares mais importantes da história tática do futebol. Não apenas pela Hungria de Puskás ou pelo 6 a 3 sobre a Inglaterra em Wembley, em 1953. Mas porque parte importante da maneira como o futebol brasileiro passou a ocupar espaços, circular a bola e interpretar movimento tem influência daquela região da Europa Central.
A cidade é atravessada pelo Rio Danúbio, que tem grande influência no batismo da capital húngaro, tendo em vista que Budapeste é a união de dois municípios: Buda, de um lado, e Peste, do outro. O rio conecta a transformação urbana de parte da Europa que viveu impérios, guerras, reorganizações políticas e intenso intercâmbio intelectual durante o século XX. O futebol entra nesse fluxo.
Escola Danubiana de Futebol
Hungria, Áustria e parte da antiga Tchecoslováquia começaram, nas primeiras décadas do século passado, a produzir um jogo diferente daquele modelo inglês mais rígido. O antigo 2-3-5 e depois o WM mantinham funções bastante estáticas, com muito avanço vertical via bolas longas e com pouca circulação curta.A escola danubiana, porém, populariza outro modelo, com o passe ganhando importância coletiva e jogadores trocando de posição com mais frequência. Assim, com o centroavante começando a sair da referência fixa, houve até mesmo a criação de uma função muito popular no futebol do fim da primeira década do Século XXI.
Puskás, o craque da Hungria, no topo do pódio dos Jogos de 1952 em Helsique -@Fifa.com/Twitter

O grande laboratório disso aparece primeiro na Áustria de Hugo Meisl e no Wunderteam dos anos 1930. Depois, explode na Hungria dos anos 1950, na seleção de Sebes, Puskás, Kocsis e Hidegkutirte. Com o tempo, essa circulação de ideias chega também à América do Sul.
Influência danubiana no futebol brasileiro
Brasil, Argentina e Uruguai já produziam um futebol extremamente técnico e criativo. O drible, a improvisação, o jogo relacional e a capacidade de jogar em espaços curtos já estavam presentes muito antes da Hungria de 1954, tendo em vista que o futebol brasileiro já havia transformado o jogo inglês através da várzea, da rua e da influência negra sobre a relação corporal com a bola.Um dos primeiros húngaros a atuar no Brasil foi Eugênio Medgyessy, treinador de clubes como Botafogo, São Paulo, Fluminense e Atlético Mineiro, entre 1926 e 1933. Além dele, Dori Kurschner, que chegou ao país para comandar o Flamengo, em 1937, também agregou toques da escola danubiana. 
Formação móvel em 4-2-4 foi base da seleção brasileira histórica
Bebendo dessa fonte e com ideias autorais, o futebol brasileiro já vinha mudando antes, quando Flávio Costa havia desenvolvido o "diagonal". Martim Francisco também trabalhava estruturas próximas do 4-2-4, e Bauer já recuava para ajudar defensivamente na Copa de 1950.
Nos anos seguintes, Béla Guttmann, um húngaro, deixou sua marca no futebol brasileiro. O nome histórico, com importante passagem pelo São Paulo, teve uma carreira vitoriosa na Europa, onde conquistou títulos importantes pelo Benfica.
O Brasil vitorioso entre 1958 e 1970
O Brasil, então, absorveu e reinterpretou as ideias, em movimento que tem como peça importante Vicente Feola. Adaptando conceitos de mobilidade, passes curtos e ocupação do espaço de forma inteligente, potencializou ainda mais a individualidade de seus craques.Na preparação e durante a Copa do Mundo de 1958, Feola estruturou o time de forma a permitir que jogadores como Zito, Didi, Pelé e Garrincha explorassem liberdade criativa. O 4-2-4 móvel, de laterais ofensivos, meias habilidosos e ataque brilhante, levou a seleção brasileira ao primeiro título mundial de sua história, dando início a um período de glórias.
Entre 1958 e 1970, o Brasil conquistou três das quatro edições de Copa do Mundo. Em todas elas, destaque para o modo de jogar com ofensividade, presente nos times comandados por Feola, Aymoré Moreira (1962) e Zagallo (1970).
Fonte: Placar




