Do sururu à reciclagem: como o cooperativismo transformou dificuldades em recomeços

Enquanto a escassez do sururu retirava o sustento de centenas de famílias, o cooperativismo mostrava que a união poderia transformar vulnerabilidade em dignidade
O desaparecimento do sururu na Lagoa Mundaú não levou embora apenas uma espécie de molusco. Levou também o sustento de milhares de famílias. Entre elas, a de Maria Alicia da Silva, que chegou a depender de doações para colocar pão na mesa até encontrar, na reciclagem, uma oportunidade de recomeçar. Hoje, aos 38 anos, ela chega ao trabalho com orgulho de quem mobiliou a própria casa, quitou dívidas e recuperou a esperança.

A mudança começou há um ano, quando ingressou na Coopmundaú, cooperativa de reciclagem criada no Vergel do Lago, um dos bairros mais vulneráveis de Maceió. Antes, Alicia fazia parte de um grupo de marisqueiras e pescadores que moram às margens de parte das duas grandes lagoas, a Mundaú e a Manguaba, que banham a capital alagoana, e viveu um drama em relação ao seu maior meio de sobrevivência, o sururu, tradição da culinária local e patrimônio imaterial de Alagoas.

Mais do que um ingrediente tradicional da culinária alagoana, o sururu é a principal fonte de renda de milhares de famílias que vivem às margens da laguna. Quando o molusco começou a desaparecer, desapareceu também o sustento de quem dependia dele. A crise que começou durante a pandemia se agravou com as grandes chuvas de junho e julho de 2024, e para piorar, a descoberta de uma espécie invasora, de origem incerta, se multiplicou e ameaçou a espécie nativa.
De acordo com o Instituto de Química e Biotecnologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o desaparecimento do sururu foi provocado por uma combinação de fatores, entre eles a poluição da Lagoa Mundaú, a pesca desordenada, as fortes chuvas que alteraram a salinidade da água, o avanço de uma espécie invasora e o assoreamento da laguna.

Com a incerteza do sururu, que afetou cerca de 3 mil pessoas que dependiam do molusco, Alicia se viu sem alternativas. "Era de lá que eu tirava meu sustento para colocar o pão na mesa. Tirava por volta de R$ 80,00 por dia, se tivesse muito sururu. Com a falta do sururu, minha família passou por muitas dificuldades, pois não tínhamos outros meios para sobreviver. Chegamos a viver dependendo de doação", revelou.
Vivendo numa humilde residência, sozinha, mas ajudando sua irmã financeiramente, ela precisava abraçar uma oportunidade de mudança. Assim, surgiu a Coopmundaú em sua vida.
"Mesmo com o Sururu, não ganhava tão bem. Às vezes, não dava pra comprar o que eu queria, pois tinha que priorizar as necessidades. Falei da minha dificuldade pra uma pessoa que trabalhava na cooperativa, da falta do sururu, e ela me levou para lá", conta.
Hoje, ela olha para a geladeira, a televisão e o guarda-roupa que conseguiu comprar e acrescenta: "A primeira grande mudança da minha vida foi poder ter condições de mobiliar a minha casa. Mudou tudo, né? Consegui realizar meus sonhos de comprar algumas coisas que eu queria. É muito bom chegar em casa e ver ela toda mobiliada. Antes eu tinha muita dificuldade e agora, trabalhando na cooperativa, eu não tenho as mesmas preocupações de antes".
A Coopmundaú, que começou como uma associação de moradores chamada "CataMundaú", funcionava em um barraco na favela no bairro do Vergel, pois não tinha prédio próprio. No início, era composta por 10 mulheres em situação de vulnerabilidade, oriundas do trabalho com o sururu, que dependiam do molusco e de valores que giram em torno dos R$ 300, vindos de programas sociais, para sobreviver. Em 2022, os integrantes conseguiram a documentação necessária para formalizar a cooperativa. Assim, nasceu a Coopmundaú.

"Todas éramos mães de família e passamos por um período de bastante dificuldade. Precisávamos levar comida para nossos filhos, pagar nossas coisas e, muitas vezes, só conseguíamos fazer isso através da ajuda de pessoas de fora, que nos davam cestas básicas. O que a gente recebia do governo era insuficiente para sustentar uma casa", relata a presidente, Edneide Alves.
Depois da formalização, que aconteceu em 2022, e a possibilidade de conseguir contratos, a cooperativa passou a prosperar. Atualmente, possui 22 integrantes, cada um com uma renda mensal fixa em torno de R$ 1.200,00, resultado do trabalho coletivo.
"Para nós, mães e pais de família envolvidos, teve uma importância imensa. Hoje, temos sustento e alimento, para nossas casas. É um prazer perceber que não dependemos mais da boa vontade de outras pessoas, de doações. Posso afirmar: eu tenho trabalho e posso levar sustento pros meus filhos", revelou Edneide.
Com 32 anos e 3 filhos adolescentes, a presidente da Coopmundaú diz que fazer parte de uma cooperativa é totalmente diferente de trabalhar sozinha, como anteriormente.
"Sinto que sozinha não temos voz, nos falta ajuda. Na cooperativa temos trabalho em equipe, nos tornamos uma família, dividimos conhecimento e experiências, aprendemos um com o outro e ficamos mais fortes. A cooperativa é uma escola: aprendemos sobre reciclagem, sobre trabalho conjunto e compartilhamos histórias de vida. Isso é o nosso dia a dia".


Outro que viu sua vida melhorar após se tornar um cooperado foi o Jonasson Tenório de Lima. Integrante da Coopmundaú há 3 anos, Jonasson já foi carroceiro e tinha no sururu a sua principal fonte de renda. Agora, com renda fixa e digna, ele fala sobre prosperidade.
"Depois que entrei na cooperativa veio muita coisa boa para mim e minha família. Abracei essa oportunidade e estou até hoje cumprindo meu papel. A cada mês que passa, melhora algo na minha casa. Vejo que isso acontece com meus companheiros também. Eu tinha vários planos que não conseguia realizar devido à falta de renda e agora eu já consegui comprar itens para dentro de casa, estou ajeitando minhas coisas. Depois de tudo que passei, isso para mim é uma conquista. Eu estou alcançando tudo que, antes, como o sururu, eu não consegui. É difícil? É, mas eu percebi que não é impossível", comparou Tenório.
Em maio deste ano, a cooperativa teve seu contrato com o poder público renovado por mais 12 meses. Assim, a Coopmundaú, que chega a dar destinação correta para mais de 15 toneladas de recicláveis por mês, garantiu renda fixa para seus 22 integrantes e suas famílias, beneficiando diretamente cerca de 90 pessoas que vivem no bairro do Vergel do Lago.
Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o cooperativismo reúne milhões de brasileiros em empreendimentos coletivos e voltados à geração de renda, inclusão produtiva e desenvolvimento sustentável. Na Coopmundaú, esses princípios se materializam diariamente na vida de trabalhadores que encontraram na união uma alternativa à vulnerabilidade.

Na Coopmundaú, o material reciclável é apenas parte do resultado. O impacto mais significativo está nas histórias de quem voltou a ter renda, autonomia e perspectiva de futuro. Ao transformar trabalhadores isolados em cooperados, o modelo fortalece famílias inteiras e mostra que a reciclagem pode ser também uma ferramenta de inclusão social.
Mais do que dividir o mesmo espaço de trabalho, os cooperados compartilham decisões, responsabilidades e resultados. O modelo cooperativista transforma trabalhadores individuais em protagonistas de um empreendimento coletivo, fortalecendo a renda, a autonomia e a capacidade de negociação.
Sobre o presente, Maria Alicia enfatiza: "a Coopmundaú se tornou meu tudo. Foi o lugar que me deu a oportunidade de sonhar, de reconstruir minha vida, de conseguir tudo que tenho hoje, de ser essa pessoa que sou hoje. Antes eu não tinha uma televisão em casa, agora eu tenho e meu próximo sonho é conquistar minha moto".
Sobre o futuro, Edneide Alves não se imagina sem o cooperativismo: "Se não existisse a cooperativa? Definitivamente, eu não sei lhe responder essa pergunta. Eu nunca parei para pensar nisso, mas seria um estrago muito grande para todas essas famílias envolvidas. Muitos que estão conosco só sabem fazer isso. Temos algumas pessoas que não teriam condições de ir para o mercado de trabalho, alguns devido à idade avançada. Se a cooperativa não existisse seria uma tragédia pra gente", afirmou.

Entre papelão, plástico e alumínio, Maria Alicia, Edneide e Jonasson atravessam as portas da cooperativa, carregando muito mais do que sacos de materiais recicláveis. Eles levam histórias marcadas por dificuldades e pela descoberta de que o trabalho coletivo pode transformar destinos. O que antes era apenas uma luta diária pela sobrevivência se tornou uma oportunidade de reconstruir a própria vida.
Enquanto o sururu ainda tenta se recuperar na Lagoa Mundaú, Alicia já encontrou outra forma de reconstruir a própria vida: "A cooperativa me deu mais que um trabalho, me deu recomeço."
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