SUS amplia atendimento psicológico para mulheres vítimas de violência; medida pode beneficiar alagoanas

Mulheres que vivem ou já viveram situações de violência passaram a contar, desde esta semana, com uma nova alternativa de atendimento psicológico gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde colocou em funcionamento o Acolhe Mais, serviço que disponibiliza até 100 mil teleatendimentos mensais em saúde mental para mulheres de todo o país.
A iniciativa também contempla mães, tias, avós, irmãs e outras familiares que cuidam de pessoas com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras. O atendimento é realizado de forma remota, por meio do aplicativo Meu SUS Digital, e a medida já alcança todos os estados brasileiros.
Para Alagoas, a ampliação da oferta representa uma possibilidade de reforçar a rede de acolhimento às mulheres, principalmente para aquelas que enfrentam dificuldades de deslocamento ou vivem em municípios onde a estrutura especializada ainda é limitada.
Dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) mostram a dimensão do problema no estado. Entre 2020 e 2024, foram registradas 26.363 notificações de violência interpessoal ou autoprovocada envolvendo pessoas do sexo feminino em Alagoas. A violência física foi a principal ocorrência entre mulheres adultas e idosas, enquanto a violência sexual apresentou maior incidência entre crianças e adolescentes.
O levantamento estadual aponta ainda que 17.826 registros, o equivalente a 67,6% das ocorrências, aconteceram dentro de residências. Em 37,2% dos casos, a violência foi classificada como de repetição, indicando que milhares de vítimas já haviam passado por situações semelhantes anteriormente.
Maceió concentra maior número de notificações
A violência contra mulheres também apresenta forte impacto nos municípios alagoanos. Segundo o boletim epidemiológico da Sesau, Maceió registrou 7.159 notificações de violência contra meninas e mulheres entre 2020 e 2024, o maior número do estado.
Arapiraca aparece em seguida, com 2.603 registros, seguida por Delmiro Gouveia, com 938; Teotônio Vilela, com 808; e União dos Palmares, com 731 ocorrências.
O cenário reforça a importância de ampliar as portas de entrada para o atendimento psicológico e para a rede de proteção, especialmente porque a violência pode deixar consequências que vão muito além das agressões físicas.
Como funciona o novo atendimento
O serviço começa pelo aplicativo Meu SUS Digital. A mulher deve acessar a plataforma utilizando sua conta gov.br, entrar na área “Miniapps” e selecionar a opção Acolhe Mais – Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Mulheres.
Depois do cadastro, a usuária será direcionada de acordo com a situação relatada. A equipe deve entrar em contato em até 24 horas para definir o dia e o horário da consulta.
Nos casos relacionados à violência, o primeiro atendimento avalia possíveis riscos, a rede de apoio disponível e as principais necessidades da paciente. Cada mulher pode realizar inicialmente até dez sessões, com possibilidade de um novo ciclo quando houver necessidade.
Ao final do acompanhamento, a paciente poderá ser encaminhada para serviços da rede local, incluindo Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), quando indicado.
Os atendimentos acontecem de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 14h. A equipe é formada por psicólogas mulheres capacitadas pelo Ministério da Saúde para realizar escuta especializada no ambiente virtual e identificar situações de risco.
Em situações de emergência, o serviço orienta a busca imediata pelos canais adequados, como o Samu ou a Polícia Militar, pelo número 190.
Medida chega em meio ao aumento da procura por ajuda
A criação do serviço ocorre em um momento de crescimento na procura pelos canais de proteção às mulheres.
Dados divulgados neste mês mostram que o Ligue 180 registrou 1.035.647 atendimentos entre janeiro e julho de 2026, alta de 90,8% em relação ao mesmo período de 2025. O número de denúncias de violência de gênero também cresceu: foram 98.705 registros nos sete primeiros meses deste ano, aumento de 15%.
A violência psicológica liderou as denúncias recebidas pelo canal federal, com 35.284 registros, ou 35% do total. Na sequência aparecem violência doméstica, física, moral e patrimonial.
O Ministério das Mulheres alerta, no entanto, que o aumento da procura pelo Ligue 180 não significa necessariamente que a violência tenha crescido na mesma proporção. A alta também pode indicar maior conhecimento sobre o serviço e uma maior disposição das vítimas para romper o silêncio e buscar ajuda.
Alagoas já possui rede especializada
O novo atendimento remoto não substitui os serviços presenciais existentes no estado. Em Alagoas, a Rede de Atenção às Violências oferece atendimento multiprofissional às vítimas, com serviços de psicologia, assistência social, orientação jurídica e acompanhamento médico especializado.
O Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM), por exemplo, realiza acolhimento, escuta qualificada, acompanhamento psicológico e social, orientação jurídica e encaminhamento para outros órgãos da rede de proteção. O serviço é gratuito.
A estrutura estadual também conta com serviços hospitalares especializados. Em Arapiraca, a Área Lilás do Hospital de Emergência do Agreste integra a Rede de Atenção às Violências e mantém atendimento às vítimas com profissionais de medicina, enfermagem, psicologia e assistência social.
A proposta do novo serviço federal é justamente ampliar essas possibilidades de acesso, funcionando como uma porta de entrada para mulheres que precisam de apoio psicológico e, posteriormente, podem ser encaminhadas para os serviços existentes em seus municípios.
Violência deixa marcas que nem sempre são visíveis
O próprio Ministério da Saúde destaca que as notificações de violência física, psicológica, sexual ou financeira contra mulheres registradas pelos serviços de saúde públicos e privados no Brasil passaram de 167,4 mil em 2015 para 348,5 mil em 2025 — mais que o dobro em uma década.
Em Alagoas, os dados da Sesau mostram que a violência doméstica e intrafamiliar ocupa papel relevante entre os registros. Entre as mulheres adultas, o parceiro íntimo aparece como principal vínculo do provável agressor em parcela significativa das notificações.
Nesse contexto, o atendimento psicológico remoto pode representar uma alternativa importante para mulheres que ainda não se sentem preparadas para procurar presencialmente um serviço de proteção ou que enfrentam dificuldades para sair de casa.
A expectativa é que a ferramenta ajude a ampliar a identificação dos casos, oferecer acolhimento inicial e conectar as vítimas à rede de proteção existente nos municípios alagoanos.
Como buscar ajuda
Além do Acolhe Mais, mulheres em situação de violência podem procurar os serviços da rede de atendimento de Alagoas ou utilizar os canais nacionais de proteção.
O Ligue 180 é destinado à orientação e ao recebimento de denúncias relacionadas à violência contra a mulher. Em situações de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.
A utilização do atendimento psicológico pelo SUS, por sua vez, pode ser iniciada diretamente pelo aplicativo Meu SUS Digital, sem a necessidade de deslocamento inicial até uma unidade de saúde.
Fonte: Redação com assessoria



