BannerAseguir3

Pandemia: Não banalizamos a morte. Fantini à Sofia - Por Dr. Alfredo Rosa

Por Alfredo em 16/07/2020 às 13:19:12

A Medicina é a profissão que exercer maior inter-relação humana. O princípio supremo do respeito à vida e ao ser humano (ser biopsicossocial) delineia as bases axiológicas desta profissão. Impossível para Médicos e para Medicina, à luz de todo nosso desenvolvimento civilizatório que alcançamos, exercer uma Medicina "desigual" ou "injusta". Atualmente, a Medicina oferece as opções para os melhores diagnósticos e tratamentos, com bases científicas, legais e morais.

A escassez de acesso à saúde não é carga da ciência médica, mas do Estado, então dos governantes. O Artigo 196 da Carta Magna, in verbis, cita que "A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação."

Não sendo possível em alguma circunstância o emprego da medicina ideal, os médicos devem comunicar a seus superiores ou aos órgãos fiscalizadores da impossibilidade da medicina justa e com equidade. O Código de Ética Médica vigente aponta isso em seu Capítulo I, dos direitos do médico.

Durante a pandemia, temos visto, seja por reportagens, manchetes ou vídeos-encontros, médicos tendo que fazer a chamada "A escolha de Sofia", escolhendo quem deve ter chance à vida. Essas manchetes vão de encontro à nobreza da Medicina e dos médicos. O que na verdade vemos é trabalho dedicado, árduo, com auto exposição destes "heróis" trabalhadores. Muitos adoeceram, outros morreram nesta luta!

Vemos ainda médicos abrindo leitos extras em UTIs, usarem respiradores artificiais para mais de um paciente (recurso extraordinário) e jamais desistirem de uma vida. Então, com relação a Medicina e os médicos, devemos evitar concordâncias com a expressão "A escolha de Sofia" - podemos banalizar pessoas e a vida dessa forma. O que seria um "tiro no pé" da ciência Hipocrática. "As escolhas de Sofia" angustiam os médicos porque são sempre por deficiência do sistema, falta de remédios, falta de respiradores e insumos.

O uso da expressão "a escolha de Sofia" teve seu momento e circunstância, e foi louvável. Refere-se a uma mãe polonesa, sobrevivente de Auschwitz que escolheu pela morte de sua filha e poupou seu filho maior. O intuito foi que a filha não viesse a sofre as intempéries daquele lugar. Wiliam Styron (1979) eternizou a história do sofrimento dessa mãe em romance, que posteriormente virou filme, e não há o que condenar na ação dessa mãe, foi por amor. Definimos "A escolha de Sofia" nas situações em nos vemos forçado a optar entre duas alternativas igualmente insuportáveis.

Mas a Medicina não nos ensina esse tipo de escolha, mas sim a usar tudo para manutenção da vida ou alívio do sofrimento humano. Os médicos devem lutar, gritar, denunciar quando em seu mister não consigam propiciar tratamentos iguais, independente de cor, raça, sexo ou IDADE.

São pessoas importantes para outras pessoas ou não?

Para os distantes, a morte é tristeza e medo, mas para familiares é sofrer para sempre.

Quando esta morte é natural, chama-se ortotanásia, ela faz parte de nossas vidas. Morrer por falta de assistência adequada é mistanásia, deve ser questionada. Nós médicos nos angustiamos por isso.

O sistema de saúde saturado, em colapso, coloca médicos e áreas afins em situações difíceis e penosas, mas o conhecimento científico atual será utilizado, para tratar e reclamar melhores condições, juntos a seus chefes e gestores, com vistas a melhor assistência.

Mesmo na pandemia, evitemos "a escolha de Sofia".

Não é da Medicina e dos médicos essa opção. O dever é do Estado. Prefiro Fantini (da obra Les misérables de Victor Hugo (1862)), mãe que vendeu os dentes, o cabelo e até se prostituiu para alimentar sua filha Cosete. Assim são os médicos ao fazer tudo pela vida de seus pacientes. A Medicina e os médicos não escolhem quem vive e quem morre, eles lutam pela vida de todos, por isso, são essenciais à humanidade.

maple 1
META