Projeção aponta que número de casos graves de Covid-19 é pelo menos o dobro do registrado no Brasil
O número de casos graves de Covid-19 que exigiram internação no Brasil é pelo menos o dobro do registrado, segundo estimativa feita pelo Núcleo de Dados do Jornalismo da Globo com base em informações do Infogripe da Fiocruz. O total de pacientes hospitalizados pode chegar a 13 mil.
De acordo com o Ministério da Saúde, 6.043 pessoas foram internadas com Covid-19 até esta terça-feira (14). Esses pacientes foram testados e o coronavírus foi confirmado.
Mas havia ao menos 15 mil testes aguardando resultado no país, segundo dados do Infogripe. Desses, entre 7 mil e 11 mil devem testar positivo para a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), segundo estimativa do Núcleo.
"Apesar dos modelos matemáticos utilizados para avaliar a evolução da Covid-19 no país, o ideal seria que tivéssemos os números exatos", afirma Leonardo Weissmann, médico infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.
"Se o teste da Covid estivesse disponível num estalar de dedos, ótimo. Mas não está. Está demorando 10, 15 dias para ser feito – então tem gente que acaba internando, vai embora e vai ver o resultado depois. E o diagnóstico de alta sai como alguma outra coisa. Não dá para confiar", afirma.
"[É um dado] muito sólido – está pegando um dado, mostrando isso no meio da pandemia, só pode ser a Covid. Você não vai achar que é outra coisa. É uma desgraça", diz Lotufo.
Testes afetam tratamento e planejamento, dizem especialistas
Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Rio de Janeiro, lembra que os testes são importantes para determinar que intervenções serão feitas em um paciente na UTI, por exemplo.
"Toda doença tem que ter diagnóstico. A Covid-19 não tem tratamento, mas tem várias propostas terapêuticas. Não ter tratamento significa que não tem um remédio X que, comprovadamente, na pessoa, por estudo científico controlado, mostrou que tem eficácia. Isso não existe ainda com a Covid", ressalta Vergara.
"[Mas] existem outras coisas que estão sendo propostas – como plasma convalescente, anticoagulação maciça. Isso vai variar com a gravidade, com os protocolos dos hospitais, com a disponibilidade do que eles têm. Você não vai fazer um plasma convalescente em uma pessoa que não tem diagnóstico de Covid", afirma a infectologista.
Além disso, ter um diagnóstico é determinante para o tratamento, também, de outras doenças, reforça a pneumologista Patrícia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.
"Nós estamos diante de uma pandemia, então a primeira desconfiança é sempre relacionada a Covid-19, mas outras doenças também podem causar Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e têm tratamentos específicos. Saber se é gripe comum ou Covid-19 já faz uma grande diferença. Para gripe, você tem tratamento. Tem medicamento com algum grau de eficácia dependendo do momento em que se inicia a medicação", explica Ribeiro.
Identificar rapidamente a doença é importante não só para o tratamento, mas também para direcionar os recursos de saúde, acrescenta a pneumologista.
"Se tem um paciente que você não tem certeza que tem Covid-19, vai para o isolamento", explica. "O profissional de saúde que vai entrar naquele leito está consumindo recursos, tem que se paramentar todo, com todo o equipamento, touca, luva, máscara N95. Então também é recurso que economiza quando se sabe o que aquele paciente tem."
Por outro lado, Paulo Lotufo, da USP, avalia que a prioridade brasileira não deve ser investir mais em testes, e sim em recursos para o atendimento aos pacientes.
"Não faz sentido testar as pessoas. Eu acho que não. O dinheiro é finito: eu colocaria no atendimento às pessoas, contratar mais enfermeiros. O que salva a vida em UTI é enfermeiro, o fundamental é a qualidade do atendimento. Estão faltando EPIs [equipamentos de proteção individual]. Eu gastaria dinheiro comprando máscara, avental", opina.
Fonte: G1




